Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?

Enviada em 23/10/2019

O escritor José Saramago, em seu romance “Ensaio sobre a cegueira”, representa a cegueira através de inúmeras metáforas, ao longo do exemplar Saramago tenta explicar como as pessoas vão se tornando cegas no mundo contemporâneo. Lamentavelmente, essa “cegueira” afeta, também, crianças e adolescentes, os quais, por serem mais jovens, estão mais vulneráveis às explorações cibernéticas, assim, sendo necessário o controle parental quanto ao uso da tecnologia. Dessa forma, esse controle precisa ser realizado com cautela, tanto por ser uma medida de segurança como por adentrar a privacidade do jovem.

Em primeiro lugar, cabe destacar que as plataformas digitais não estão isentas de golpes e crimes, e os mais explorados são aqueles que ainda estão descobrindo as dinâmicas sociais. Para elucidar essa ideia, é possível remeter ao que fala o professor de Harvard Steven Pinker, em sua obra “O novo iluminismo”: “os usuários de redes sociais preocupam-se demais com as outras pessoas, e sentem empatia por elas e por seus problemas”. Desse modo, sabendo que é essa preocupação que favorece às manipulações, caso os pais não atuem promovendo a segurança dos seus filhos os dados coletados pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática, infelizmente, vão continuar a crescer: houve um aumento de 50% dos casos de pedofilia virtual de 2016 para 2017. Logo, o controle de acesso a alguns sites e de postagens e exposições em redes sociais é essencial para prevenir possíveis infortúnios.

Em segundo lugar, é relevante pontuar que a gestão excessiva do comportamento virtual dos filhos pode ocasionar danos nas relações parentais. Para compreender melhor essa ideia, é oportuno mencionar o que fala o sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro “44 cartas do mundo líquido moderno”: “a desconfiança pode fomentar na perda de valores”. Sendo assim, a desmedida administração familiar é prejudicial no tocante ao desenvolvimento dos vínculos entre  pais e filhos na medida em que revela o ceticismo na capacidade do jovem de estabelecer comportamentos seguros. Por fim, seria negligente não admitir que é razoável que as crianças e adolescentes tenham notáveis noções de segurança, já que estão mais familiarizadas com as novas tecnologias.

Portanto, é urgente pensar em medidas para tornar esse controle parental saudável. Para tanto, as escolas - por participarem do processo de socialização dos alunos juntamente com a família - devem criar projetos para os pais que auxiliem no posicionamento frente aos controles: debates com o setor de psicologia, aulas de como utilizar as plataformas digitas e ainda, momentos de integração pais e filhos. Isso pode ser feito por meio da parceria entre as escolas e as famílias. Com efeito, as crianças terão um ambiente digital seguro para se desenvolver de forma sustentável e privada.