Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?
Enviada em 21/01/2020
O filme norte-americano “Confiar” relata a história da adolescente Annie, a qual vive uma rotina conturbada e decide buscar novas amizades na internet, mas sem o monitoramento de seus pais. Nesse sentido, a narrativa destaca as ações da garota no meio virtual e expõe os perigos que ela enfrentou, tais como: assédio e exposição sexual. Fora da ficção, esse cenário de ausência do controle parental também está presente no cotidiano brasileiro e tornou-se um sério problema, visto que – seja pela negligência e incapacidade familiar – compromete a integridade física das crianças e impede alternativas de prevenção.
A princípio, cabe analisar o papel negligente dos pais sob a visão do sociólogo francês Émile Durkheim. Segundo o autor, o indivíduo só poderá agir na medida em que conhecer o contexto em que está inserido. Analogamente, o atual âmbito familiar dos jovens – o qual boa parte dos responsáveis não promovem diálogos sobre as ameaças existentes na internet e julgam ser desnecessário educar os filhos para a interação virtual – permite que conteúdos violentos e sites impróprios sejam acessados. Por consequência, a autonomia das crianças em ferramentas digitais torna-se vulnerável e ausente de filtros contra possíveis perigos.
Ademais, além da negligência, a incapacidade de parte dos familiares também corrobora na problemática e convém ser contestada sob a perspectiva da filósofa alemã Hannah Arendt. Segundo a autora, a sociedade sustenta práticas deploráveis simplesmente por não analisar a repercussão desses atos. Dessa forma, na medida em que pais não estabelecem regras de uso dos aparelhos tecnológicos e ignoram comportamentos contraditórios, esses responsáveis acabam por serem incapazes de proteger seus filhos contra o mal-uso da internet. Logo, gradativamente, os métodos de supervisão parental perdem a utilidade, o que facilita o consumo abusivo e inseguro dos equipamentos digitais.
Diante disso, torna-se evidente que medidas devem ser tomadas. Para isso, o Ministério da Educação, em parceria com agências publicitárias, deve promover campanhas acerca do controle parental, de modo a divulgar vídeos pedagógicos, com diálogos entre pais e filhos sobre os perigos da internet, para incentivar o debate dessa temática. Dessa forma, será possível construir relações estáveis no âmbito familiar e preservar as crianças de conteúdos nocivos. Além disso, plataformas midiáticas, por meio de postagens nas redes sociais, devem informar aos responsáveis sobre alternativas de instruir os jovens a utilizarem de forma controlada e segura os aparelhos digitais, a fim de impedir o acesso a materiais violentos e inibir a exposição excessiva na rede, assim como a jovem Annie no filme “Confiar”.