Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?
Enviada em 18/04/2020
No episódio “Shut up and Dance” da série “Black Mirror”, um garoto, prestes a encarar a vida adulta, é gravado em posição comprometedora por “hackers” enquanto assistia a pornografia “on-line”. Esse marco do episódio ilustra como os jovens crescem em meio ao digital e constroem laços - até mesmo atrelados ao prazer - com tal. Fora da ficção, hoje, muitos desses optam por tolhir seus anseios reais frente às possibilidades da Era Digital, sobretudo, dos pais: um problema potencialmente nefasto. Dessarte, é fulcral apontar a tortuosa concepção de realidade desses indivíduos no meio cibernético como a principal razão da problemática, a fim de entender o caráter ímpar do controle parental.
De início, afirma-se que os meios de comunicação em massa hodiernos permitem, aos usuários, um arcabouço, frequentemente, deturpado do real. Essa perspectiva atende, em especial, à obra literária “Homo ludens”, do historiador alemão Johan Huizinga. Nela, o autor oferece reflexões sobre uma idiossincrasia inerente aos humanos: respaudar-se no que é lúdico, ou seja, no que é ora imaginário, ora surreal, apelidando-a de “natureza lúdica”. Logo, se a internet outorga aos interlocutores inúmeras possibilidades consoantes à “natureza lúdica”, os jovens podem sofrer com uma noção de realidade extremamente divergente do que perpassa os veículos digitais, mormente, caso os pais ausentem-se.
Destarte, é notório a função imperiosa do controle parental, a qual é, também, aclamada pelos descendentes implicitamente. Para se depreender disso, é válido evocar o cientista político Manuel Arias Maldonado, quem, em sua obra “Nostalgia del Soberano”, tenta traduzir as inseguranças sociais, econômicas e políticas de sua sociedade em uma “saudade” de uma figura centralizada que traria estabilidade, o “soberano”. No entanto, esse é, no contexto da problemática, a imagem dos pais, haja vista que a internet pode trazer não só benesses, mas também intempéries - como os “hackers” em “Black Mirror” -, as quais, nos jovens, incitam a “saudade” preconizada por Maldonado.
Portanto, visto a intempestividade do panorama acerca do controle parental, infere-se que é urgente maior atitude dos pais, levando em conta que isso vai além de uma mera invasão de privacidade. Para promover tanto, compete ao Ministério da Cidadania, enquanto órgão deliberador máximo no que se relaciona aos cidadãos brasileiros, o dever de criar e divulgar campanhas que evidenciem o teor corrosivo do uso indiscriminado das tecnologias digitais por jovens, por meio de apoio midiático e de verbas governamentais, objetivando eliminar as mazelas da internet que confrontam o desenvolvimento da nova geração. Assim, observar-se-ia uma sociedade de “soberanos” que pousam sobre as inseguranças da “sociedade” de Maldonado, no que concerne ao uso da internet, e que espelham similar atitude às demais nações.