Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?
Enviada em 04/06/2020
O episódio “Arkangel”, do seriado televisivo “Black Mirror”, relata a trajetória de uma mãe superprotetora que implanta, no cérebro de sua filha, um chip que, através de um aplicativo, é capaz de controlar tudo aquilo que ela possa ver e sentir. Distante da perspectiva fictícia, tal narrativa não destoa da realidade presente no Brasil, uma vez que a presença dos pais na atividade digital dos filhos tem se tornado cada vez mais comum. Nesse sentido, não há dúvidas que, gradativamente, os perigos da internet e a fuga da fiscalização excessiva corroboram para a existência de uma linha tênue entre a proteção e a invasão de privacidade, no que tange ao controle parental quanto ao uso da tecnologia. Convém ressaltar, primordialmente, que a constante exposição no mundo digital faz com que muitos responsáveis legais vejam-se na obrigação de proteger as crianças perante os riscos e as ameaças existentes nas redes. À vista disso, Émile Durkheim, na teoria da percepção do estado da sociedade, afirma que há duas divisões: “normal e patológica”. Nesse ínterim, salienta-se a ascensão de um ambiente patológico no meio virtual, haja vista que a reprodução de conteúdos “sem filtro” pode se tornar nociva às crianças, o que leva os pais a buscarem mecanismos para conter o mau uso da internet.
Por conseguinte, destaca-se a necessidade de fuga da bolha social, criada pela superproteção parental, que, por vezes, fere a privacidade dos pequenos usuários e promove uma reação contrária ao sentimento de segurança. Analogamente, no conceito de sociedade disciplinar, Michel Foucalt afirma que o poder articula-se em uma linguagem que cria instrumentos de controle para aumentar a subordinação. Desse modo, a inevitabilidade e escape da monotorização excessiva ocorre ao modo em que os moldes e filtros, nos quais os filhos estão submetidos, impedem o exercício da liberdade e da construção da noção de mundo.
Portanto, urge a intervenção das autoridades competentes para viabilizar o dialogo em relação ao controle parental quanto ao uso da tecnologia. Por isso, o Governo Federal deve, juntamente com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) e as instituições de ensino do país, criar semanas de interação entre pais e alunos, por meio de palestras ministradas por psicólogos no ambiente escolar, que expliquem tanto os riscos da exposição digital, quanto os efeitos da repressão infantil. Dessarte, tal ação, com a finalidade de conscientizar os pais acerca do tema e promover uma analise mais crítica para a navegação saudável na internet, pode, inclusive, ser disponibilizada no site do Ministério, para alcançar, com isso, um maior número demográfico. Somente assim, poder-se-á fazer com que a realidade distópica de ‘Black Mirror" permaneça, unicamente, na ficção.