Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?
Enviada em 21/09/2020
A criança observa cenas de violência na tela do celular durante o almoço, e os pais, presentes na mesa, não reparam, porque também estão com os olhos vidrados em seus smartphones enquanto engolem a comida sem saborear - cenas como essa têm se tornado cada vez mais comuns em lares brasileiros. Isso configura um problema, pois o controle parental quanto ao uso da tecnologia é essencial para a formação de jovens seguros de si, responsáveis e empáticos. Assim, convém analisarmos as causas e consequências dessa problemática.
Primeiramente, é importante destacar que a geração atual vive um dilema. Adultos criados, na maioria das vezes, dentro de famílias hierárquicas, não querem reproduzir o autoritarismo que perpassou sua educação. Porém, ao buscarem ser democráticos, muitos deles acabam não conseguindo estabelecer os limites de que seus filhos necessitam. Assim, acabam delegando suas responsabilidades a terceiros, como a escola, esquivando-se de seu papel quando a criança está em casa. Somado a isso está o fato de as inovações tecnológicas serem cada vez mais rápidas e sedutoras, configurando um apelo constante que faz com que os adultos se sintam sem parâmetros para lidar com elas na relação com os filhos. Assim, pesquisa realizada pela AVG mostra que de cada 10 crianças, 5 já possuem uma vida social na internet.
Entretanto, o mesmo estudo indica que apenas 55% dos pais estão cientes daquilo a que seus filhos acessam e utilizam programas de segurança, enquanto 33% admitiram não ter qualquer controle sobre o que os pequenos fazem na rede. Tal laissez-faire é pernicioso, pois a criança que navega livremente na web, além de correr o risco de ser exposta a cenas de violência, pornografia ou de ser vítima de malfeitores, também pode se sentir angustiada e apresentar problemas no seu amadurecimento. Isso porque é a segurança transmitida pelos pais, através de limites claros, regras e horários, que a torna confiante para experimentar, sabendo que não lhe será permitido ultrapassar os limites, o que a colocaria em riscos.
É necessário, portanto, tornar os adultos mais conscientes de seu papel e dos perigos de uma criação sem regras. Para isso, o Ministério da Família, da Mulher e dos Direitos Humanos deveria garantir que os futuros genitores partilhassem dessa discussão, podendo expressar suas angústias e dúvidas, mas que também tivessem acesso a dados e conhecimentos científicos sobre infância e desenvolvimento. Faria isso através de cursos preparatórios, de caráter público e obrigatório para todos aqueles que estivessem em acompanhamento pré-natal. Tal medida tornaria os pais mais esclarecidos e seguros para lidarem com seus futuros filhos, permitindo ao Estado antecipar problemas.