Controle parental quanto ao uso da tecnologia: prevenção ou invasão à privacidade das crianças?

Enviada em 08/10/2020

Rafael Hitlodeu, personagem fictício da obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, descreve uma ilha cujos habitantes convivem em harmonia. Todavia, percebe-se a inexistência desse lugar no mundo real, visto que o uso da Internet por parte das crianças, acarreta em uma maior vulnerabilidade das delas. E, consequentemente, pais que, na tentativa de protegê-las, invadem suas privacidades. Logo, essa caótica e degradante questão deve ser analisada e solucionada.

Antes de tudo é importante ressaltar que os perigos da vida real apenas são acentuados pelo mundo virtual. Segundo o filósofo Jonh Locke, a mente humana é como uma tábula rasa, expressão latina análoga à ideia de uma tela em branco. Assim, as experiências e as vivências às quais o indivíduo é submetido na infância moldam, segundo Locke, seu caráter e seu aprendizado. Nesse sentido, a criança é mais susceptível aos ataques de pessoas maliciosas no mundo online, como pedófilos que se passam por crianças a fim de conseguirem persuadi-las. Essa vulnerabilidade causa medo nos pais cujas medidas protetivas, por exemplo, envolvem o bloqueio de sites de conteúdo adulto e violento e a visualização das mensagens trocadas pela criança.

Ademais, é necessário analisar o quanto o controle parental excessivo é benéfico à saúde da criança. Conforme explicita o filósofo Mario Sérgio Cortella, “precisa-se cuidar da ética para não anestesiar a consciência e começar a achar tudo normal”. Esse problema acerca da normalização de diversas situações, como a superproteção parental, infelizmente, tem sido explícito, visto que na sociedade moderna, o pensamento de segurança física da criança sobrepõe todas suas individualidades e sua privacidade. Isso ocasiona problemas na saúde mental e no desenvolvimento pessoal, como indivíduos, os quais a sensação de aprisionamento provoca o afastamento social tanto fisicamente quanto no âmbito online, ja que suas mensagens com amigos são lidas.

É, necessário, portanto, que o ministério da cidadania, aliado às secretarias estaduais de educação, promovam o debate cívico. Essa ação se dará por meio de reuniões com o apoio de psicólogos e antropólogos. Tal conduta terá como intuito estimular a criticidade dos pais, para que possam proteger seus filhos sem inibir suas individualidades, tornando a realidade mais próxima àquela descrita por Hitlodeu.