Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 30/11/2020

Na mitologia grega, Prometeu foi condenado a ter seu fígado devorado diariamente por um abutre. Fora da ficção, o mito adapta-se à temática das cotas nas universidades, uma vez que essa é uma forma de iniciar a pagar dívidas históricas ignoradas por muito tempo. Nesse sentido, a visão etnocêntrica europeia, a partir do século XVI, oprimiu povos locais e, posteriormente, aplicou sobre africanos o trabalho escravo. À luz disso, uma postura racista persiste até os dias atuais, o que mantém a discriminação. Portanto, as causas dessa realidade precisam ser relembradas e o Estado deve garantir o acesso ao estudo com a intenção de diminuir as desigualdades socioeconômicas estruturais.

A priori, de acordo com o escritor brasileiro Gilberto Freyre, o modelo colonizador empregado no Brasil seguiu uma espécie de “democracia racial”. Segundo o autor, isso amenizou os impactos do embate entre as raças e privilegiou uma convivência harmoniosa. Porém, essa teoria – que ainda não foi desmistificada plenamente em várias mentes - não ocorreu na prática, uma vez que as marcas da opressão aos indígenas e da escravidão são verídicas. Ademais, a falta de liberdade de expressão e a inação governamental sobre o assunto aprofundaram a problemática. Somado a isso, o fato de não terem ocorrido indenizações financeiras aos recém libertos escravos após a Lei Áurea de 1888 acarretou o fenômeno da favelização em grandes cidades do país, como Rio de Janeiro e São Paulo.

A posteriori, conforme o pedagogo Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. Sob esse prisma, todos os seres humanos merecem condições plenas e igualitárias. Afinal, se a sociedade brasileira é miscigenada e diversa, é contraditório não assegurar vagas para determinados grupos. Nessa perspectiva, diversidade não significa hierarquia, mas sim riqueza. Dessa maneira, a melhor forma para aproximar as pessoas é aprimorar os caminhos da educação pública, de modo a construir - por intermédio da educação - comunidades livres de estereótipos e integradas pelo conhecimento, a fim de suprir a falta de justiça social ao longo dos últimos séculos.

Logo, é mister que o Ministério da Educação e Cultura (MEC) invista em campanhas nas redes sociais e nas mídias televisivas, com o propósito de conscientizar as pessoas de que as cotas são uma ferramenta de promoção da igualdade – e não um instrumento que destrói a meritocracia. Outrossim, é vital que o MEC promova palestras em escolas e centros culturais, com o intuito de reduzir os prejuízos causados pelas injustiças praticadas no passado. Para tanto, será necessário utilizar verbas provenientes dos impostos pagos pela população com a finalidade de criar um fundo de prevenção ao preconceito e de esclarecimento sobre a necessidade do sistema de cotas. Assim, amenizar-se-á a degradação do fígado dos marginalizados, por meio da vitória sobre o abutre da segregação.