Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 22/11/2020

O livro ‘‘Utopia’’, escrito por Thomas More, retrata uma ilha na qual tudo é perfeito, com ausência de conflitos e problemas. No entanto, fora do universo literário, a sociedade perfeita não foi alcançada pelos seres humanos, uma vez que, apesar de necessária e constitucionalizada, a cota nas universidades ainda é vista como retrocesso por algumas camadas da população. Logo, cabe avaliar a questão.

Ressalta-se, de início, que a disparidade histórica entre negros e brancos faz do sistema de cotas medida indispensável. Tristemente, a abolição de escravatura não se deu de maneira totalitária, haja vista que não foram criados meios de ingressar os afrodescendentes à sociedade, dificultando, por parte desses indivíduos, o acesso à educação. Por conseguinte, o viés levantado torna-se nada mais do que justo, pois resquícios dessa desigualdade ainda perpetuam hodiernamente, uma vez que, segundo dados do IBGE, apenas 12,8% dos pretos e pardos são estudantes em instituições de ensino superior brasileiras.

Outrossim, é válido salientar que, em concordância com Aristóteles, na obra ‘‘Ética a Nicômaco’’, a política serve para promover a equidade da nação. Dessarte, a divisão de vagas também deve ser distinta de acordo com a renda, posto que pessoas com maior poder aquisitivo possuem melhores oportunidades, como adesão em cursos pré-vestibulares, reforços e colégios privados. Ao seguir essa linha de pensamento, fica claro o porquê, consoante o MEC, seis em cada dez universitários brasileiros pertencem à camada mais rica da população.

Urge, portanto, que medidas sejam tomadas. Inicialmente, cabe ao Ministério da Educação, por meio de uma mudança na grade curricular do ensino médio, acrescentar às aulas de história e geografia debates acerca da necessidade ou não das cotas. Detalhadamente, tais discussões devem ser mediadas pelo docente responsável, que também deverá explicar os motivos históricos e sociais da política de cotas atual. Desse modo, um mundo perfeito, tal como o de More, estará mais próximo.