Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?
Enviada em 26/11/2020
Na série brasileira “3%”, é retratado um mundo pós-apocalíptico em que a população está inserida em um contexto de pobreza, destruição e fome. Contudo, aos 20 anos de idade, os cidadãos recebem a possibilidade de passar pelo “Processo” (uma rigorosa seleção de provas físicas, morais e psicológicas que oferece a chance de ascender socialmente). Porém, apenas 3% chegarão até lá e, por sua vez, dentre esse grupo, existem indivíduos que se destacam devido ao poder socioeconômico. Fora do mundo distópico, é visível a segregação de minorias em avaliações, como o vestibular e concursos. Assim, faz-se necessária políticas que visem aumentar o acesso ao ensino superior dessa parcela da população, devido às disparidades geradas pelo legado de racismo e a desigualdade social.
Primeiramente, vale ressaltar que os jovens negros ou declarados pardos possuem menos oportunidades de acesso ao ensino superior em comparação às pessoas brancas de mesma faixa etária. Segundo o Antônio Teixeira (coordenador de gênero, raça e estudo geracionais do IPEA), a população negra possui os menores indicadores sociais do Brasil, o que inclui, por exemplo, o acesso a bens de consumo e o grau de escolarização. Nesse sentido, é perceptível que jovens afrodescendentes não estão inseridos em uma competição justa por vagas em universidades, visto que segundo dados da ONG: “Todos pela Educação”, apenas 62% deles estão matriculados no ensino médio. Desta forma, o benefício dado a afrodescendentes durante o processo seletivo para o terceiro grau é justificado pelas condições desiguais na educação geradas pela disparidade histórica de raças no país.
Outrossim ,a expressiva diferença econômica observada no meio social brasileiro leva a grandes diferenças na qualidade do ensino básico no país. De acordo com dados divulgados pelo INEP, 97% das escolas que obtiveram maior nota no ENEM eram particulares. Isso demonstra que a qualidade do ensino recebido pelos alunos é determinado pela condição financeira, o que caracteriza a exclusão das parcelas mais pobres de cotas raciais e econômicas. Além disso, consoante a Karl Marx, “a consciência de classe da burguesia é um dos grandes obstáculos para a mudança”. Desse modo, observa-se o preconceito e suposto estigma com os cotistas da própria sociedade, já que inúmeros não apresentam esse senso crítico da consciência de classe, sendo esta problemática uma barreira para o sistema.
Portanto, verifica-se que a política de cotas raciais e econômicas para o ingresso em universidades no Brasil se mostra necessária no sentido de combater problemas históricos do país. Nesse âmbito, é fundamental que o MEC mantenha a Lei de Cotas e divulgue, por meio de mensagens institucionais e com o apoio da mídia, a importância da inclusão de populações tipicamente marginalizadas na sociedade, negros e pobres. Diferenciando-se da realidade vivida na série “3%”.