Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 22/11/2020

Em “As origens do totalitarismo”, Hannah Arendt afirma que a mentalidade imperialista de conquista com objetivo de enriquecimento de grupos dominantes, é a origem da inferiorização de etnias e culturas. Ao tomar como base essa perspectiva para análise das cotas nas universidades, pode-se inferir que embora vista por muitos como retrocesso, é uma importante medida de inclusão, o que promove equidade e reparação histórica.

As ações afirmativas são interpretadas por muitos indivíduos como um sinônimo de involução uma vez que aparentemente estimulam a ideia de incapacidade de determinados grupos. No entanto, a política de cotas é uma medida de suma importância no processo de inserção universitária, visto que viabiliza o ingresso em universidades por alunos oriundos de minorias historicamente segregadas desse espaço, como negros e indígenas. Conforme Arendt, na obra supracitada, a atual inferiorização e marginalização de minorias sociais é resultado da mentalidade imperialista que subjugava povos distintos do padrão branco europeu. Logo, a aplicação de cotas é um meio de romper com a hierarquização e com o abismo social mantidos durante décadas, promovendo uma reparação histórica para com o público alvo.

Por conseguinte, perpetuam-se a equidade no acesso ao ensino superior e aos cursos até então frequentados majoritariamente por membros da elite, como a medicina, por exemplo. Como resultado sobrevém a mobilidade social de uma parcela da população marginalizada devido à desigualdade de oportunidades, esse processo é resultado do amplo leque de possibilidades disponibilizado pelo ambiente universitário. A título de exemplificação, o CREMESP entrevistou a estudante de medicina Suzane Pereira, a aluna negra, com mãe faxineira e pai metalúrgico é a primeira da família a ingressar no ensino superior e afirma que sem as ações afirmativas essa escolha não seria possível.

Fica evidente, portanto, que é preciso combater o preconceito em relação a política de cotas. Para tanto, a escola, como instrumento de metamorfose social, deve atuar na desconstrução de discursos alienantes e na construção de senso crítico acerca da importância das ações afirmativas. Esse trabalho pode ser realizado por meio da formação de grupos de estudo que promovam debates sobre a manutenção da marginalização de indivíduos e suas implicações, o que pode ocorrer no próprio espaço escolar, com reflexões sobre a obra de Hannah Arendt, por exemplo, que trata, entre outros aspectos, do processo de hierarquização e segregação de pessoas pertencentes a determinadas etnias e culturas. Assim, será possível promover mudanças estruturais de base, já que os alunos serão agentes transmissores das ideias discutidas.