Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?
Enviada em 24/11/2020
O Brasil é um país desigual historicamente, pois, ao longo de quase 400 anos de sua história, a elite branca adotou a escravidão africana como força de trabalho. Como consequência desse processo, a sociedade brasileira contemporânea ainda reflete essa disparidade entre as classes sociais e entre as supostas raças, já que, segundo o Ministério da Educação, enquanto as pessoas de pele clara são maioria nas universidades públicas, grande parte da população negra e pobre não possui nem sequer uma educação básica de qualidade. Nesse cenário, faz-se necessária a existência de cotas para que as pessoas excluídas socialmente tenham a chance de estudarem nas universidades públicas. Sendo assim, essa política é uma solução para mitigar essas desigualdades, o que configura um avanço.
A princípio, é importante salientar que a adoção de cotas para que certos grupos ingressem nas universidades mostra-se como uma forma de diminuir a desigualdade secular no Brasil, pois elas permitem a democratização do conhecimento. Nesse sentido, de acordo com o filósofo iluminista Immanuel Kant, “a educação faz com que o homem saia de sua minoridade intelectual”. Isso porque, com um maior acesso de pessoas provenientes de grupos marginalizados às universidades, a diversidade de pensamentos nos espaços acadêmicos brasileiros aumentará, de modo a desenvolver nesses indivíduos um pensamento crítico que os motivem a buscarem soluções para o problema da desigualdade no país. Com isso, graças ao sistema de cotas, ingressam nas melhores universidades pessoas que vivenciam as mazelas do Brasil e, por isso, elas são as mais aptas para solucioná-las.
No entanto, apesar de o sistema de cotas se mostrar como uma maneira eficiente de democratizar a educação em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, ainda existem setores na sociedade, principalmente os mais elitizados, os quais afirmam que as cotas são um retrocesso. Para justificar esse ponto de vista, utilizam como discurso o fato de que as cotas violam a meritocracia, isto é, as universidades, supostamente, estariam selecionando pessoas despreparadas por meio dessa política. Esse discurso pode até ser aplicável em um país onde todos que concorrem a uma vaga na faculdade possuem as mesmas condições, mas essa realidade ainda está distante da observada no Brasil.
Portanto, tendo em vista que as cotas configuram-se como inclusão e não como retrocesso, urge que o governo federal destine verbas para que cada vez mais estudantes dos grupos marginalizados entrem nas faculdades por esse sistema. Esses investimentos podem ocorrer por meio da abertura de mais vagas para cotistas em universidades públicas, a título de USP e Unicamp, além da promoção de palestras e debates que desconstruam o pensamento retrógrado de que as cotas são um retrocesso. Dessa forma, o Brasil superará, gradualmente, as consequências deixadas pela escravidão.