Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 25/11/2020

A colonização brasileira, que ocorreu a partir do século XVI, foi pautada na exploração da mão de obra escrava, deixando diversas feridas em nossa sociedade que são sentidas até hoje por determinados grupos sociais. Por isso, ao debatermos acerca do sistema de cotas nas universidades, é desonesto não pautar como a atual conjuntura social é derivada dessa colonização e como aqueles que foram deixados às margens da nossa sociedade ao longo da história dependem ainda de ações de inclusão para poderem ter acessos e garantias. Primeiramente, é fato que a visão colonialista do século XVI está ainda arraigada em nossa sociedade e é reproduzida em muitos aspectos criando uma hierarquização social que desfavorece o acesso de grupos minoritários a determinados locais, como a universidade pública, por exemplo. Nesse sentido, Ariano Suassuna, escritor brasileiro, tece uma crítica à injustiça secular, dizendo que essa divide o Brasil em dois países distintos: o dos privilegiados e o dos desafortunados. Essa visão corrobora com a afirmativa que determinados grupos ainda são deixados à dependência da própria sorte em uma sociedade que criou uma espécie de “apartheid social” dos tempos modernos. Ademais, é notório, infelizmente, que pessoas negras são as que mais sofrem pela desigualdade social gerada por esse processo. Segundo o IBGE, instituto Brasileiro de Geografia e estatística, o Brasil é formado por uma população com aproximadamente 56% de pessoas que se auto declaram pretas ou pardas, o que confere a população negra a maioria populacional brasileira. No entanto, esses números não refletem todos os setores da nossa sociedade, hoje eles são a minoria em cargos de diretoria em empresas privadas, na política e na magistratura, o que reforça a desigualdade social vivenciada por esse grupo e reflete a necessidade de intervenção do Estado na garantia dos direitos. Por isso, para que nossa sociedade possa caminhar em sentido contrário a injustiça secular dita por Ariano e criar um só Brasil, é necessário que o Estado utilize de ações afirmativas para criar uma sociedade mais igualitária. Nesse sentido, a manutenção da lei de cotas para a garantia do acesso à universidade é primordial e sem dúvida uma ferramenta de inclusão. Assim, garantiremos que não só os privilegiados tenham acesso, mas que também a camada vista como marginalizada possa conquistar seu lugar frente à sociedade e quebrar com o “status quo”.