Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?

Enviada em 30/11/2020

Na obra “Capítulo 4, Versículo 3”, do grupo Racionais MC’s, é mencionado que apenas 2% dos estudantes de universidades são negros. Mais de 20 anos depois do lançamento da música, o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística divulgou que, pela primeira vez, estudantes negros eram maioria nas faculdades públicas, com uma taxa de pouco mais de 50% dos alunos. Tal conquista deve-se, em grande parte, às cotas. Porém, é importante evidenciar que, de acordo com dados também do IBGE, 54% da população brasileira se declara preta ou parda, ou seja, a taxa de ingresso do grupo PPI -pretos, pardos e indígenas- continua sendo inferior à da população branca. Problema esse que se deve ao processo histórico que resultou na marginalização da população não branca no Brasil.

De acordo com dados divulgados pela Universidade Federal do Paraná, a taxa de evasão de alunos cotistas é três vezes menor que a dos ingressantes da modalidade de ampla concorrência. A perspectiva de possuir uma formação gratuita e de qualidade é nova e gratificante para alunos de colégios públicos, impedindo que os mesmos desistam nas primeiras adversidades. Outros dados oferecidos pela mesma instituição mostram que o desempenho de estudantes que ingressaram por cotas é ligeiramente superior ao dos alunos do sistema universal, provando que, além do papel da inclusão, o sistema de cotas tem garantido a formação de profissionais capacitados.

Além disso, após a Lei Áurea, não houve garantia de inserção dos escravos libertos na sociedade, resultando na formação de favelas, dificultando o acesso à educação e emprego, entre outras mazelas que perduram notavelmente até os dias de hoje. Dados os fatos, conclui-se que a ideia da existência de uma “meritocracia” no Brasil não passa de um mito do liberalismo, pois esse pensamento parte do pressuposto de que todos os indivíduos necessitam se dedicar igualmente para um objetivo comum, ignorando que, desde o nascimento, pretos e pardos lidam com obstáculos que não são da preocupação da população branca.

Em síntese, conclui-se que o papel que o sistema de cotas está desempenhando é essencial e promissor. E com isso, urge a necessidade de que o Ministério da Educação inicie políticas de conscientização sobre os processos históricos que resultaram na necessidade de cotas sociais e raciais, desmentindo a ideia de uma suposta meritocracia, com a finalidade de eliminar qualquer intenção de acabar com o sistema de cotas, visto que tal sistema é tão necessário numa sociedade capitalista, formada por um colonialismo exploratório.