Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?
Enviada em 01/12/2020
Em “Ensaio sobre a cegueira”, obra ficcional do escritor José Saramago, observa-se uma epidemia de perda de visão em determinada comunidade. A incapacidade de enxergar pode ser depreendida como um retrato metafórico da conduta social perante os problemas da realidade. É possível relacionar essa “cegueira”, por exemplo, diante dos impasses relacionados ao uso de cotas para ingresso nas universidades no Brasil. Por esse viés, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que envolvem essa questão no país.
Inicialmente, analisa-se que o Poder Público se apresenta omisso ao não estimular o uso de cotas em todas as universidades. Isso porque há uma deficiência no processo de formulação das leis, uma vez que tal iniciativa ajudaria a diminuir ainda mais as desigualdades que permeiam a comunidade brasileira, como a social, já que grande parte da população não tem acesso à uma educação de qualidade, e a racial, visto que os negros não tem as mesmas oportunidades que os brancos no mercado de trabalho. Sendo assim, vê-se que o governo não tem garantido o bem-estar de toda a coletividade, o que demonstra a ruptura dos preceitos estabelecidos na Constituição Federal de 1988.
Além disso, enfatiza-se que a descriminação do sistema de cotas é uma representação das concepções enraizadas na sociedade. Sabe-se, pois, que, ao longo do tempo, há uma tendência de marginalizar as cotas, já que isso acontece em virtude da existência de estereótipos de que elas burlam a meritocracia, desconsiderando, porém, seu papel fundamental no aumento da representação do que realmente é a sociedade brasileira dentro na universidade, antes um ambiente exclusivamente da elite. Segundo o IBGE, negros e pardos representam 55,8% da população do país e, agora, são 50,3% nas universidades públicas. Essa problemática pode ser elucidada com base nos estudos filosóficos de Friedrich Nietzsche, posto que, segundo ele, a falta de informação faz com que as pessoas criem opiniões deturpadas sobre a realidade.
Convém, portanto ressaltar que os impasses referente ao uso de cotas no ingresso em universidades devem ser superados. Para isso, é necessário que a população exija do Estado, mediante debates em audiências públicas, a formulação de uma lei que estimule o uso de cotas em todas universidades, a fim de atenuar as desigualdades presentes na sociedade. Ademais, deve haver conscientização da comunidade, através de campanhas midiáticas promovidas pelo Ministério da Cidadania, sobre a importância das cotas para o ingresso de pessoas das diversas parcelas da população brasileira que não tem acesso à oportunidades, com o objetivo de que reconheçam sua visão limitada, para, em seguida, desconstruí-la.