Cota nas universidades: Inclusão ou retrocesso?
Enviada em 31/12/2020
Após 300 anos de escravidão, o Brasil, em 1888, sancionou a Lei Áurea, responsável por conceder liberdade total aos escravizados que habitavam a região brasileira. Essa lei, no entanto, embora importante para a população negra, não forneceu direitos aos os recém libertos, que eram obrigados a tentar sobreviver sem possuírem bens básicos em uma sociedade racista e segregatória, sem acesso a emprego, saúde e educação. Nesse contexto surgiram as cotas raciais, como uma medida paliativa para a desigualdade no âmbito universitário. Todavia, mesmo após anos, ainda há obstáculos para a aceitação desse plano, ocasionados pela sociedade meritocrata e a ignorância em torno do tema.
Em primeiro plano, sabe-se que o Brasil é muito influenciado por ideais baseados no mérito, que têm como premissa a crença de que todos os indivíduos podem prosperar por suas capacidades e talentos, independente de qualquer coisa. Entretanto, a aplicação desse princípio não é justa, visto que o povo na base da hierarquia social, composta, principalmente, por racializados, nunca receberam espaço e oportunidades para alcançar seus objetivos, situação abordada na série “3%”, que se passa em um Brasil pós apocalíptico, onde 3% da população oprimida recebe a chance de mudar de vida e sair da marginalização, mas o processo é injusto e beneficia, na maioria das vezes, os que estão dispostos a trapacear ou trair seus companheiros. Ou seja, usar o mérito para justificar e classificar as cotas como algo negativo e discriminante é errado, visto que, na verdade, são apenas uma forma de inclusão àqueles que tiveram seus direitos à educação negados há centenas de anos.
Ademais, outro fator contribuinte para o menosprezo das cotas, que dá força ao princípio citado anteriormente, é a incompreensão dos cidadãos sobre as vagas reservadas à negros e indígenas, que deveria ser entendida como uma medida para amenizar as desigualdades que sempre existiram para esses grupos, e não como um privilégio dado à eles. Além disso, o mito da democracia racial, que diz que todos dispõem dos mesmos acessos, independente de raça e etnia, acrescenta para a perpetuação desse problema, uma vez que também é responsável por fazer o corpo social, principalmente brancos, acreditarem que é injusto conceder o mínimo para outros grupos.
Portanto, pode-se constatar que os problemas discutidos são motivados, sobretudo, pela convicção de que competência por si só leva ao sucesso, e a falta de compreensão sobre o tema por parte dos cidadãos. Logo, com o objetivo de diminuir os impasses, é necessário que o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, insira projetos que incentivem a instrução de jovens e adultos, a partir de reuniões gratuitas nos municípios, sobres as implicações da meritocracia e questões raciais no Brasil. Assim, gradativamente, será possível educar os brasileiros para atingir a equidade.