Crise migratória no século XXI: o olhar brasileiro para o estrangeiro

Enviada em 25/05/2021

Em sua obra “O povo brasileiro”, a artista plástica Tarsila do Amaral explora a retórica historiográfica de que o Brasil é um país miscigenado. Através de diferentes tonalidades de pele, cabelos e traços anatômicos, a autora ratifica a pluralidade das raças formadoras do país. Entretanto, devido à expansão da crise migratória atual, a obra vai de encontro ao olhar do brasileiro para o estrangeiro, que passa a ser cada vez mais marcado pela xenofobia e racismo.

Em primeira análise, pontua-se sobre a onda crescente de xenofobia no Brasil.  Com a descoberta do novo coronavírus e a pandemia de COVID-19, o comportamento de aversão ao estrangeiro tornou-se explícito. Segundo reportagens do portal “UOL”, como o vírus foi descoberto na China, grupos extremistas passaram a correlacionar a doença ao povo oriental. De acordo com a matéria, em alusão ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump, membros desses grupos chamavam o causador da COVID-19 de “vírus chinês” e culpavam estrangeiros e sino-brasileiros pela epidemia mundial. O texto ainda mostrava perseguições virtuais e até mesmo na realidade, como no caso de um condomínio paulista que tentou frear a circulação de moradores orientais. Dessa forma, fica evidente que uma parcela da população brasileira, munida de xenofobia, passa a olhar o estrangeiro de forma negativa.

Além disso, dados historiográficos mostram que o racismo sempre foi uma problemática no país. Ao analisar pela óptica da escritora Lilian Schwarcs, historiadora brasileira e autora de “Brasil: uma biografia”, fica clara essa relação. Segundo a autora, a ex-colônia portuguesa sempre se manteve ávida pela cultura europeia, que era considerada superior. Por conta disso, políticas étnicas foram estipuladas ao longo de toda a história brasileira. Schwarcz exemplifica esse paralelo com a política de branqueamento populacional adotada na virada para o século XX, na qual a imigração de povos europeus era estimulada em detrimento da de africanos e orientais. Portanto, evidencia-se historicamente que o brasileiro, influenciado pelas práticas da Europa, enxerga grupos estrangeiros de outras regiões do globo como inferiores.

Observa-se, portanto, que o olhar do brasileiro para o estrangeiro é repleto de xenofobia e racismo, fruto de políticas históricas e atuais. Assim, o Ministério da Cidadania — órgão responsável pelas políticas de desenvolvimento social — deve, por meio de campanhas publicitárias nas mídias, conscientizar a população acerca do assunto, ressaltando a formação mista da sociedade brasileira e a importância da pluralidade racial na evolução de um país, para que, então, o olhar do brasileiro para o estrangeiro seja benéfico, tal qual a representação de formação do Brasil por Tarsila.