Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/11/2020

No episódio “Queda Livre”, da série Black Mirror, é mostrada uma realidade em que a vida se baseia em avaliações trocada pelas pessoas, por intermédio de um aplicativo. Nesse cenário, caso a reputação do indivíduo seja baixa, há a exclusão social. Assim, de forma análoga à série, a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea possui a mesma função do aplicativo: apontar erros e promover a exclusão virtual. Entretanto, esse comportamento atual prejudica a saúde mental de diversas pessoas e estimula a intolerância nas redes sociais.

Primeiramente, é válido retratar os danos gerados pela cultura do cancelamento. De fato, essa prática já possuiu intenções positivas, visto que colaborava com o repúdio a práticas racistas, intolerantes e desrespeitosas na internet. No entanto, além do aumento no número de casos de cancelamento sem critérios, as pessoas “canceladas” são submetidas a ofensas e ameaças, o que afeta diretamente o psicológico dessas. Dessa forma, a normalização de atos agressivos — fenômeno descrito, pela filósofa alemã Hannah Arendt, como “banalidade do mal” — contribui com a intensificação de doenças psicológicas na sociedade, além de propiciar consequência em vários setores da vida de uma pessoa, como no emprego, na família, na escola e entre outros.

Ademais, cabe considerar que essa nova conduta social forma um mundo extremamente intolerante e opressivo. Segundo o sociólogo Jurgen Habermas, em uma sociedade madura os indivíduos procuram evoluir em conjunto a partir do diálogo. Contudo, o ato de “cancelar” alguém nas mídias sociais atrelou-se, contrapondo tal visão, a uma punição sem base. Sob esse viés, é exemplificado o caso do americano Emanuel Cafferty, o qual foi acusado de fazer um sinal racista com os dedos enquanto os estalava, incidente que resultou na perda do seu emprego. Tal condenação explicita a falta de senso crítico dos usuários e mostra a importância do diálogo para resolução de impasses.

Portanto, pode-se concluir que a cultura do cancelamento é uma prática nociva à sociedade e ao seu comportamento, já que se tornou algo banal. Logo, as escolas devem estimular o senso correto de justiça em crianças e adolescentes — os quais constituem a maior parcela de usuários na internet —, por meio da inserção, na grade curricular desses, de aulas voltadas para desenvolver o julgamento e incentivar a busca por informações construtivas em debates. A partir dessa medida, espera-se que os jovens cresçam e saibam avaliar melhor as situações, a fim de que sejam extinguidas as práticas errôneas de cancelamento na internet e, assim, que o episódio de Black Mirror permaneça nas ficções.