Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 27/10/2021
A composição “A Queda”, do cantor drag queen Gloria Groove, faz uma reflexão sobre a temível cultura do cancelamento ao apontar, por meio do vídeo musical ambientado em um circo de horrores, a crueldade do corpo social contemporâneo. Sob esse viés, analogamente à temática abordada na melodia, quando vislumbrado a atmosfera dos discursos de ódio na internet, o quadro mostra-se extremamente preocupante. Nesse sentido, dois fatores são cruciais para serem revistos no que tange ao imbróglio: a falsa noção de impunidade e a superexposição nas redes virtuais.
Em primeira análise, cabe destacar o impacto da perspectiva ilusória de liberdade gerada pelas plataformas digitais na permanência da problemática, fenômeno que, através do processo globalizante, foi potencializado pela massificação das tecnologias. Nessa senda, é perceptível que a manifestação de narrativas nocivas no meio midiático encontra no possível anonimato e na sensação de impunidade uma maneira de impulsionar o “hate” em aplicativos como Twitter e Instagram. Desse modo, nota-se como a política do cancelamento gera uma forma moderna de ostracismo na sociedade e, assim, engendra diversas consequências para a vítima, a exemplo da rapper Karol Conká que foi alvo desse evento coletivo após disseminar discursos preconceituosos durante o programa Big Brother Brasil.
Ademais, é imperativo pontuar o compartilhamento excessivo da vida pessoal nas redes de comunicação como um dos fatores que validam o estorvo. Nessa ótica, é lícito mencionar a célebre teoria da “Sociedade do Espetáculo”, em que o escritor Guy Debord critica a comunidade hodierna pelo culto exacerbado à imagem. A partir disso, em consonância com as ideias do autor, a necessidade dos indivíduos em exibir constantemente a rotina diária nas ferramentas virtuais torna a cultura do cancelamento mais propícia, já que deixa os usuários suscetíveis a esses ataques. Com isso, a vulnerabilização construída pela superexposição midiática possibilita as investidas de cunho excludente, o que pode acarretar, como resultado, sequelas psicológicas à pessoa.
Verifica-se, portanto, a demanda por medidas capazes de minimizar esse grave cenário atual. Para tanto, urge que as instituições escolares, em parceria com as famílias, desenvolvam nos ambientes de ensino projetos didáticos que visem a educar os jovens acerca do uso adequado dos meios de comunicação em massa, de modo a alertá-los sobre os riscos e efeitos colaterais do cancelamento digital, bem como da demasiada exposição pessoal nesses núcleos. À vista disso, por intermédio de palestras e rodas de conversa, objetiva-se, mediante a formação de cidadãos mais empáticos e que saibam lidar com os impasses coletivos de maneira salutar, diminuir os discursos supressivos. Destarte, tornar-se-ia possível reverter o contexto retratado na música A Queda por Gloria Groove.