Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 21/09/2020
O filósofo francês Michel Foucault afirma: o poder é a base inevitável de todas as relações humanas. Seguindo essa ótica, a tecnologia se mostra como instrumento de poder, dado sua capacidade de promover intervenções socioespaciais. Sob esse pensamento, nos dias atuais, debates são levantados sobre a cultura do cancelamento digital, haja vista os impactos ocasionados na convivência entre os indivíduos. Nesse contexto, convém ponderamos as principais causas e efeitos, com o intuito de promover a dissolução desse fenômeno.
Vale destacar, em uma primeira análise, entre os fatores: o ato de boicotar figuras públicas. Nesse viés, a renomada escritora britânica Rowling foi cancelada por emitir declarações sobre os transexuais, consideradas preconceituosas. Sob esse prisma, o cancelamento é caracterizado como um movimento massivo de forma inadequada, em que denúncias maliciosas são circuladas nas redes sociais, tendo como principal objetivo reduzir o alcance e proporcionar a aversão dos fãs. Assim, enquanto a falta de percepção sobre esse mal se mantiver, o mundo está fadado a conviver com um dos mais graves obstáculos para o âmbito social: a maldade humana.
Em uma segunda análise, uma consequência dessa problemática é a limitação da autonomia sobre as escolhas. Nessa perspectiva, consoante Jean Paul-Sartre – expoente filósofo do século XX –, em seu conceito de “liberdade de escolha”, o homem é um ser livre e responsável por tudo que faz. Sob esse raciocínio, infere-se que, infelizmente, na sociedade contemporânea, esse princípio é comprido por meio do cancelamento, na medida em é um ataque à reputação e que ameaça o emprego do cancelado, o que representa um grave problema. Dessa maneira, é imprescindível que as pessoas sejam responsabilizadas pelas atitudes maléficas ao seu semelhante. Com isso, todos usufruirão do poder de escolha de forma equilibrada.
É irrefutável, portanto, que é preciso reverter a cultura do cancelamento no Brasil. Nessa conjuntura, o Ministério da Ciência e Tecnologia – entidade governamental responsável por gerir as políticas públicas tecnológicas – deve efetivar a lei já existente de crimes digitais (Lei Carolina Dieckmann), por meio da implantação de centrais que estarão atentas para receber e analisar denúncias, aplicando as medidas cabíveis, quando houver necessidade. Esperar-se-á, com essa iniciativa, que haja redução dessa problemática e estimular o posicionamento mais consciente e coerente nas pessoas. Feito isso, haverá a utilização de instrumentos de poder de forma harmônica – sobretudo à tecnologia cibernética.