Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 04/11/2020
Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas suficientes ajam sobre ele, sobressaindo sua inércia. Esse é, infelizmente, o hodierno cenário da cultura do cancelamento na sociedade contemporânea: uma inércia que perdura em detrimento do individualismo humano, além da segregação e enfermidades sofridas pelas vítimas. Sendo assim, convém ressaltar os principais pilares desta chaga social.
Vale ressaltar, a princípio, que preocupações associadas aos ataques cibernéticos não apenas existem, como vêm crescendo diariamente. De outra parte, o sociólogo Zygmunt Bauman defende, na obra “Modernidade Líquida”, que o individualismo é uma das principais características - e o maior conflito - da pós-modernidade e, consequentemente, parcela da população tende a ser incapaz de tolerar diferenças. De maneira análoga, tal individualidade pode provocar linchamentos virtuais simplesmente por divergências de opiniões e/ou prenoções enraizadas na sociedade que promove um meio estático, acarretando em um distanciamento cada vez maior entre pessoas e grupos sociais com dogmas distintos ao invés da pluralidade de experiências e informações que poderiam ser partilhadas.
Sob outro prisma, faz mister, ainda, salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve descendentes e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Outrossim, possivelmente, hoje, ele percebesse quão certeira foi sua decisão: a atual conjuntura das consequências do cancelamento virtual é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Aprofundando mais, doenças como depressão e síndrome do pânico geralmente são ocasionadas por tais hostilidades vivenciadas na internet, causando uma segregação social por receio de mais ataques, o que promove o agravamento das enfermidades ou, até mesmo, o surgimento do novas. Com isso, há a formação de um dilema social com dimensões cada vez maiores.
Destarte, forças externas devem tornar efetivas vencendo a inércia proposta por Newton. Sendo assim, o Governo Federal, em parceria com o Poder Legislativo, deve conter os ataques cibernéticos por meio da criação de leis para punir os agressores, afim de frear tais atitudes esdrúxulas que adoecem a população. Além disso, urge que a mídia, através de novelas e seriados, propague as consequências do cancelamento virtual, com o propósito de elucidar a população e mostrar as sequelas que estão sendo geradas. À vista disso, alcançar-se-á uma rede interativa menos tóxica, pois como disse o poeta Oscar Wilde: “O primeiro passo é o mais importante na evolução de um homem ou nação”.