Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 25/11/2020

Margaret Atwood, nas páginas de “O Conto da Aia”, trouxe à fictícia Gilead a desconstrução moral das mulheres que se opunham à ideologia vigente, condicionadas a penas cruéis, como a morte e o exílio. Para além da Literatura, a perspectiva de exclusão descrita pela autora canadense mostra-se atual, embora atenuada, sobretudo em ambientes online, nos quais a cultura do cancelamento esfacela a dignidade de internautas com opiniões minoritárias. Com efeito, esse panorama contemporâneo ergue-se no Brasil em decorrência da compactuação social e da ineficiência do Estado.

Em primeiro plano,a práxis do cancelamento é alicerçada pela passividade social.Essa afirmação se fundamenta na falta de empatia de expressiva parcela populacional, a qual recebeu uma educação que negligencia o pluralismo e, assim, acastela os linchamentos virtuais a partir da valorização de discursos dominantes e da ausência de alteridade. Nesse sentido, a realização de julgamentos intolerantes nas mídias correlaciona-se ao conceito de “Habitus”,de Pierre Bourdieu,na medida em que o filósofo francês afirmava que as estruturas sociais são interiorizadas pelos sujeitos em suas ideias e ações, como observado no cancelamento de opiniões divergentes da maioria. Dessa forma, a superação desse quadro preconceituoso nas redes possui relação com a construção de postura crítica na população.

Em segunda análise, a não efetiva atuação estatal fomenta a cultura do cancelamento no país. Isso porque, ao se mostrar operacionalmente precarizado no combate à intolerância em universos online, o Poder Público secundariza a criação e o cumprimento de normas que enfrentem a prática da linchagem nesse meio e seus possíveis efeitos ,como a violência física, o que arquiteta uma sensação de impunidade e permissividade. Nesse contexto, Fiódor Dostoiévski, na obra “Crime e Castigo”, refletira acerca da nocividade, para o corpo social, da ocorrência de delitos impunes, cujo resultado é o rompimento dos valores éticos de uma comunidade. Desse modo, a eficiência das instâncias de Poder na aplicabilidade das leis faz-se crucial para que os “canceladores” sejam desencorajados a desconstruir moral e fisicamente suas vítimas.

Portanto, a apatia social e a ineficácia governamental consubstanciam a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. À vista disso, o Ministério da Educação deve estimular a tolerância nas redes sociais, por meio da elaboração de materiais didáticos e dinâmicas nas escolas que versem sobre os impactos negativos de uma sociedade “canceladora”,nos quais participem sociólogos e psicólogos especializados na relação com a internet,a fim de construir uma atmosfera online de debates respeitosos. Destarte, a partir dessa medida e da estruturação de leis que combatam a opressão virtual, o cenário desolador desvelado por Margaret Atwood não será uma realidade empírica para a nação.