Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/11/2020

Na série “Black Mirror”, é mostrada a relação da tecnologia com a realidade humana. Nesse sentido, em um episódio, por exemplo, a sociedade é dividida em classes sociais a partir de notas entre 0 e 5, sendo a classificação máxima às pessoas mais famosas e de maior influência nas redes sociais. Dessa maneira, a população se baseia nas atitudes e comportamentos de cada internauta para definir suas notas. À vista disso, as pessoas que possuem menores classificações são humilhadas e rebaixadas para um nível inferior. Fora do mundo distópico, é visível o linchamento virtual sobre os indivíduos que não atingem os comportamentos esperados pela sociedade são cancelados. Assim, a cultura do cancelamento está associado aos altos padrões impostos por esse grupo e a banalização do mal.

Primeiramente, vale destacar que, segundo o escritor Guy Debord no livro “Sociedade do espetáculo”, o corpo social é influenciado pela mídia, uma vez que, em conjunto ao mercado industrial, propaga imagens que simbolizam os padrões que as pessoas devem adquirir. Nessa lógica, esse conceito estabelece frágeis relações interpessoais dos usuários, visto que determinam esses arquétipos como corretos e de valores morais. Destarte, os influenciadores digitais ou pessoas com diversos “seguidores” são as principais vítimas dessa cultura do cancelamento, dado que apresentam maiores pressões sociais devido ao grande número de indivíduos que impõe tais moldes. Por esse motivo, ao não seguirem as referências, os famosos são humilhados e desrespeitados por atitudes consideradas incorretas, assim como é visto em “Black Mirror”.

Por outro lado, de acordo com a filósofa alemã Hannah Arendt em “A banalidade do mal”, o pior mal é aquele visto como algo corriqueiro e cotidiano. Sob essa ótica, a concepção reflete na problemática enfrentada pelo cancelamento virtual, visto que inúmeros internautas, além de criticarem as pessoas que não seguem os padrões impostos pela sociedade do espetáculo, são denominados “haters” (usuários que procuram perfis e disseminam ódio). Sendo assim, muitas pessoas se autodenominam justiceiros e espalham ódio sustentado pelo politicamente correto para cancelar alguém, o que se torna um problema, pois uma vez dito, a reparação do dano causado pode ser irreversível.

Portanto, faz-se necessário que o Governo desenvolva, por meio de leis, artifícios que coíbam a criação de perfis falsos nas redes sociais (os denominados “haters”), para evitar que pessoas que utilizem contas falsas no intuito de difamar outrem. Além disso, é responsabilidade do Ministério da tecnologia estabelecer uma canal de comunicação mais afetiva com os internautas, por intermédio de aplicativos sociais, como o Instagram, para denunciar a disseminação do ódio. Com efeito social, a cultura do cancelamento no Brasil não será mais realidade, afastando-se da realidade de Black Mirror.