Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/11/2020

Segundo o pensamento de Zygmunt Bauman, as relações humanas são constantemente afetadas pela queda das atitudes éticas - devido à fluidez de valores - que atendem aos interesses pessoais em detrimento ao coletivo. Esse panorama auxilia na análise da questão da cultura do cancelamento, já que o indivíduo, ao estar imerso na perspectiva líquida, acaba tornando-se um juiz da internet, visto que detém uma falsa visão de direito de julgamento. Diante dessa perspectiva, é lícito afirmar que o espaço digital está vasto de falsos juízes e inexatos julgamentos.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que - em função do advento da tecnologia - os internautas engajaram-se cada vez mais com a perspectiva democrática do espaço digital, no qual as minorias da sociedade também seriam capazes de possuir voz. Apesar desta perspectiva de representatividade, o cancelamento surgiu nas redes sociais como uma forma de julgar indivíduos - anônimos ou famosos -  excluindo, dessa maneira, a possibilidade de fala das pessoas julgadas, já que o ato de “cancelar” espalha-se exponencialmente e toma grandes proporções em um curto espaço de tempo. Assim, ao analisar a sociedade pela visão de Bauman, nota-se que as relações no meio digital não contribuíram plenamente para a formação de um real espaço democrático, que respeita opiniões diversas, dado que o ato de cancelar anula a perspectiva de comportamentos divergentes.

Outro ponto relevante, nessa temática, é o conceito de panóptico de Michel Foucault, que explica a relação de vigiar e punir presente na sociedade e que, consequentemente, surgiu como uma maneira de “normalizar” o sujeito moderno, com a criação de dispositivos e mecanismos de vigilância. Paralelamente, o panóptico encontra-se também nos meios digitais, visto que ocorre uma vigilância simultânea entre os usuários, que podem ser cancelados a qualquer momento por alguma fala ou ação considerada incorreta. Em vista disso, a cultura do cancelamento pode ser considerada uma maneira de repressão, já que essa vigilância permanente do meio midiático tem como a principal finalidade a punição, ou seja, o cancelamento.

Assim, é mister que medidas ocorram para alterar esse cenário vigente. É fundamental, portanto, que influenciadores digitais informem e conscientizem os usuários sobre as consequências de um cancelamento e seus pontos negativos para a vítima, a fim de tornar o espaço digital um lugar mais tolerante a opiniões diversas. Ademais, é vital o papel da família no processo instrutivo de crianças e adolescentes na análise concreta de fatos antes da formação de pré-julgamentos. Dessa maneira, o conceito de modernidade líquida deixará de ser uma realidade no momento em que a sociedade se tornar mais ética.