Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 08/11/2020
A cultura do cancelamento é a maior evidência de que o conceito de Panoptismo de Michel Foucault sobrevive na contemporaneidade, visto que, por meio das redes sociais, a população é constantemente vigiada e punida por ela própria, em casos de cometimento de condutas consideradas antiéticas. Desse modo, o cancelamento figura-se como uma modalidade de sanção não estatal hodierna, sendo de suma importância o debate acerca desse tema, bem como de suas implicações em âmbito social.
Em primeira análise, cabe destacar o potencial ofensivo que essa modalidade de punição virtual pode representar, tendo em vista ela não ser legítima, do ponto de vista normativo. A respeito disso, torna-se fundamental frisar que a função punitiva, em uma sociedade contratualista, como previsto pelo filósofo iluminista Monstesquieu, é de exclusividade do Estado, pois, dessa maneira, a sanção limitar-se-ia por leis democráticas e evitaria abusos, tal como ocorria no estado de natureza do homem. Nesse viés, uma vez que os cancelamentos ocorridos em meio digital exemplificam uma espécie clandestina e não oficial de sanção, logo elas não são delimitadas legalmente, o que as tornam extremamente nocivas e potencialmente abusivas.
Em segundo lugar, cabe destacar, sobretudo no Brasil, a desregulamentação e a falta de fiscalização da internet e suas instâncias como um dos fatores responsáveis pela perpetuação dessa prática na web. Isso posto e, tendo por base o conceito de modernidade líquida de Zygmunt Bauman, observa-se uma incapacidade do Estado em acompanhar as rápidas e dinâmicas transformações por que passa o mundo, evidenciando uma ineficiência no que tange ao policiamento do meio virtual, o que acaba criando as condições para que a cultura do cancelamento prospere. Assim, em razão do aparato burocrático ser sempre mais lento que as mudanças sociais, como percebido pelo filósofo polonês, as redes sociais são como o oeste norteamericano do século XIX, uma terra sem leis, desregulamentada juridicamente e um âmbito notoriamente conflituoso.
Destarte, fica evidente que esse fenômeno recorrente do cancelamento de pessoas na internet é um sério problema que exige medidas das autoridades governamentais brasileiras. Nesse sentido, urge que a pasta dos Direitos Humanos, do governo federal, divulgue campanhas conscientizadoras, por meio do Instagram e Facebook, bem como através de plataformas de streaming de vídeos, como o Youtube, para que, desse modo, um senso crítico possa ser despertado na sociedade, diante do potencial ofensivo que essa prática nociva pode representar. Com isso, espera-se que as punições clandestinas se reduzam e que o poder de sanção mantenha-se centralizado com o Estado, a fim de que se previna abusos e um retorno indesejável ao estado de natureza do homem.