Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 05/11/2020

Aceitação da pluralidade para a convivência contemporânea

O filósofo Michel Foucault apresenta um conceito denominado de microfísica do poder que se resume nas formas de como as instituições, por exemplo, o meio cibernético, exercem influência sobre os indivíduos a partir do discurso de seu grupo. Exemplo atual dessa prática é a convencionada “cultura” do cancelamento em que pessoas isolam ou expulsam membros do seu próprio grupo porque eles ousaram discordar da opinião majoritária. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea e, revela-se a necessidade de se debater sobre o assunto, visto que implica tanto no acanhamento e medo dos usuários das redes sociais quanto na realização do linchamento virtual.

Em primeiro plano, é preciso atentar que o individualismo é um fator determinante na persistência desse impasse. Na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman defende que a sociedade atual é fortemente influenciada por práticas individualistas. Logo, a identidade de alguém pode acabar resumida em um único erro por consequência de um prejulgamento público. No entanto, esse equívoco pode induzir o acanhamento e medo dos internautas de dividirem suas opiniões em consonância ao receio de vigilância constante que se mostra capaz de calar vozes.

Além disso, o predomínio do desejo de seguir a opinião dominante e a crença de uma única verdade absoluta tem induzido o aumento da realização do linchamento virtual que consiste em ofensas e incitações violentas dirigidas pelos anônimos radicais. Sob essa óptica, conforme o filósofo moderno Clóvis de Barros, as opiniões não nascem conosco, elas são ouvidas e aprendidas durante a vida. Desse modo, fica evidente que exercer tal prática linchatória apenas corrobora para uma sociedade que tende a optar pelo silenciamento de suas questões e pela substituição de debates incisivos por embates violentos, concluindo-se, assim, que atitudes coercivas oprimem ao invés de civilizar.

Entende-se, diante desse exposto, a necessidade de se obter políticas públicas que compreendam o assunto. A partir disso, compete ao Ministério da Educação aliado das instituições educacionais, propor debates em centros comunitários e criar projetos pedagógicos, que sejam webconferênciados com o objetivo de atingir o maior público possível, a fim de trazer maior clareza sobre os impactos, de escala social, ocasionados pelos cancelamentos e ressaltando que debates respeitosos são mais benéficos para o bom convívio. Por fim, é preciso que a comunidade brasileira olhe de forma mais otimista para a diferença, pois, como constatou Hannah Arendt: “A pluralidade é a lei da Terra”.