Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 09/11/2020

Na Idade Média, a Santa Inquisição foi um órgão criado pela Igreja Católica que perseguia aqueles que praticavam atos considerados reprováveis por essa instituição, promovendo uma “caça às bruxas” na Europa daquele período. De modo análogo à perseguição medieval, o advento da internet no mundo contemporâneo proporciona, por meio de plataformas digitais, ambiente ideal para uma inquisição moderna, em que ocorre a cultura do cancelamento — um movimento com efeitos nocivos à sociedade brasileira. Tais consequências se devem à subversão do sentido de transformação social do movimento e são agravadas pela escassez de medidas estatais que combatam as implicações negativas desse processo. Assim, faz-se necessário o debate acerca da cultura do cancelamento e de seus impactos.

A priori, convém ressaltar que a desvirtuação do propósito inicial do movimento é importante resultado da cultura do cancelamento. Segundo a filósofa Hannah Arendt, na obra “Eichmann em Jerusalém”, o indivíduo pode praticar ações perversas mesmo que não possua intenções maldosas, devido a um processo de naturalização do mal. Sob esse prisma, nota-se que as manifestações dessa banalização da maldade são presentes no Brasil, pois a alteração do sentido original do cancelamento — de promover uma sociedade mais justa — implica, muitas vezes, em linchamentos virtuais dos alvos das críticas. Dessa forma, o cancelamento pode tornar-se um meio de difusão de discursos de ódio.

A posteriori, deve-se destacar que a pouca iniciativa governamental para combater as consequências negativas da cultura do cancelamento é essencial para que esses efeitos perdurem na sociedade brasileira. De acordo com a Constituição Federal de 1988, no inciso IV do artigo 3º, é prevista a promoção do bem de todos, sem preconceito de cor, origem, raça, sexo, idade ou outra forma de discriminação. Nesse sentido, observa-se que essa legislação não é eficiente em relação aos impactos danosos do cancelamento, haja vista a violência moral praticada contra os cancelados pelos internautas. Dessa maneira, ocorre, no âmbito virtual, a violação dessa diretriz, o que prejudica as vítimas desse fenômeno.

Depreende, portanto, a necessidade do enfrentamento aos efeitos negativos da cultura do cancelamento no Brasil. Para tanto, o Ministério da Educação deve tornar a questão do cancelamento um tema transversal — ou seja, a ser trabalhado por componentes curriculares diversas — que será discutido com adolescentes nas escolas, mediante adição dessa pauta nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os quais normatizam os assuntos estudados nas instituições de ensino. Essa ação visa à conscientização desses alunos a respeito dos resultados prejudiciais do cancelamento, minimizando a propagação de discursos de ódio nas redes sociais.