Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/11/2020

Na Atenas Clássica, suspeitos de crimes políticos podiam ser banidos ou exilados da cidade por 10 anos por meio do voto de cidadãos, punição denominada ostracismo. Nesse contexto, percebe-se de que forma o subjetivismo e a polarização do povo podem influenciar a vida pública de certos indivíduos. Assim, nota-se que, devido ao advento da Internet, essa punição ateniense adquiriu novos patamares na contemporaneidade. Com o poder de julgar ações de pessoas em qualquer lugar e hora, surgiu a cultura do cancelamento, fenômeno alvo de debates e, em suma, prejudicial para a sociedade como um todo. Tal situação decorre, principalmente, de uma falta de educação digital nas escolas, possibilitando linchamentos virtuais, e da fragilização das relações sociais causadas pelo ato.

A priori, vale ressaltar a falta do letramento digital nas instituições escolares. Para tal, cabe mencionar a célebre frase do filósofo prussiano Immanuel Kant, “o homem é aquilo que a educação faz dele”. Nesse viés, é evidente o papel da educação na formação do cidadão e que sua falta ocasiona adversidades nela. Ou seja, a ausência da instrução nas escolas sobre como usar meios digitais de forma crítica faz muitos abandonarem o propósito original do cancelamento, que era a busca por justiça social, para aderirem aos linchamentos virtuais — voltados a qualquer um com opinião diferente — pela avaliação precária das fontes de informações que recebem. Consequentemente, tal conjuntura, muitas vezes criminosa, assume um cenário ainda mais sério e prejudicial na sociedade.

Ademais, é importante destacar de que forma o cancelamento denota o desrespeito ao direito do outro. Para isso, convém mencionar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que garante a liberdade de expressão como direito a todos. No entanto, é evidente que a cultura do cancelamento não se enquadra nessa definição, uma vez que o direito e imagem da vítima podem ser comprometidos de forma maléfica. Essa circunstância se torna ainda pior com os efeitos de fake news sobre a pessoa cancelada, que são cada vez mais prevalentes em função da falta de análise de fontes na Internet, consequências das quais são inconvenientes à sociedade em geral e podem ser, novamente, um crime.

Em síntese, a cultura do cancelamento é algo negativo na sociedade contemporânea e exige limitações. Destarte, cabe ao Ministério da Educação auxiliar as escolas a promoverem a educação digital, isto é, como analisar e compartilhar informações nas redes de forma crítica, por meio de aulas interdisciplinares com a Sociologia e a Filosofia. Dessa maneira, visa-se minimizar os efeitos negativos do cancelamento, mantendo, assim, o fenômeno do ostracismo moderno controlado.