Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/11/2020
Durante a Idade Média houve um movimento da Igreja Católica de perseguição a indivíduos acusados de bruxaria, chamado Inquisição, o qual levou um número gigantesco de inocentes a fogueira por boatos e suspeitas tênues feitas sem nenhuma prova concreta. Embora de épocas distintas, o cancelamento digital possui aspectos semelhantes, pois, em ambos, pessoas são julgadas de maneira injusta e preconceituosa por ato, não recebendo o devido julgamento. Isto resulta em consequências negativas, destacando-se o impacto direto à liberdade de expressão, sobretudo nas matérias propagadas na internet, produzindo consequências nefastas na vida de inúmeras pessoas, tanto famosas, quanto anônimas.
Como forma de chamar atenção para os problemas sociais e ambientais, surgiu o movimento internacional do cancelamento nas redes sociais, visando dar voz a ditas causas, ao exigir a opinião de figuras poderosas quanto ao seu enfrentamento. Todavia, o movimento tomou um rumo radical, funcionando como meio de ataque a reputação de indivíduos, tendo potencial de afetar tanto psicologicamente, quanto financeiramente. Em razão disso, os conteúdos compartilhados nas redes passaram a ser cada vez mais politizados, levando os que expõem opinioso divergentes ou formulem comentários questionáveis a sofrerem uma espécie de censura.
Além disso, ocorre uma série de consequências negativas na vida dos afetados, que variam desde quesitos sociais até aos monetários. “As redes sociais deram voz a legião de imbecis”, como dito por Uberto Eco, pois nelas pessoas espalham e defendem opiniões inapropriadas sobre diversos assuntos, enquanto outras não aceitam a opinião diferente, pré-julgando, até mesmo, pessoas que virtualmente estão ao seu redor. Destaque-se o caso da influencer digital Gabriela Pugliese, que após sofrer o famigerado cancelamento perdeu milhões em contratos. Outro fator, é o direito de esquecimento, que quase impossível de ser assegurado no mundo virtual, levando muitas vítimas ao suicídio, sobretudo quando o fato ganha repercussão.
Portanto, torna-se ainda mais importante que se assegure a liberdade de informação, devendo o cancelamento ser aplicado em hipóteses excepcionais, pelas mídias digitais, que devem investir em profissionais capacitados para tentar apaziguar, de forma menos traumática, os conflitos, proporcionando um ambiente digital mais saudável. Outra medida seria a intervenção do Judiciário para assegurar às vítimas de cancelamento uma apreciação do caso de acordo com as garanti-as constitucionais, até mesmo restabelecendo a reputação da vítima, atenuando os prejuízos psicólogos e financeiros.