Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/11/2020

Em junho de 2020, em meio a um forte movimento anti-racista nos Estados Unidos, o pai de família Emanuel Cafferty foi filmado dentro de seu carro com a janela aberta e acusado de fazer sinal racista com os dedos. Dias depois, foi demitido de seu emprego e único sustento devido a denúncias feitas na internet, que acabaram sendo falsas. Esse caso se tornou um dos maiores exemplos da “cultura do cancelamento”, que sem qualquer tentativa de incentivar aprendizado ou diálogo, busca, de forma vazia, boicotar pessoas que cometeram qualquer erro por meio de ataques virtuais, exposição e até divulgação de dados pessoais, crimes que não são levados à sério.

De acordo com o visto, percebe-se que a cultura do cancelamento, muitas das vezes, vem de um ativismo raso e performático que utiliza de táticas de humilhação e um verdadeiro linchamento virtual ao invés de promover diálogo e aprendizado. O doutor em psicologia Leonardo Goldberg explica esse pensamento, afirmando que os cancelamentos são tornados em espetáculos públicos onde, novamente, o cancelado não tem fala ou meio de se justificar. Como vivemos em uma era digital, onde a maioria das pessoas está nas redes sociais, muitas indignadas com o mundo ao seu redor, usando, então, o cancelamento como forma justa de justiça.

Ainda, é preciso destacar que a maioria das estratégias utilizadas no cancelamento, como a humilhação, ataques e ofensas em massa, cyberbullying e, principalmente a divulgação de dados pessoais como endereço e informações familiares são crimes na legislação brasileira. Entretanto, é notável que tais crimes não são levados a sério pela justiça, mesmo que, diariamente, sejam registrados pelo menos 366 crimes cibernéticos em todo o país, de acordo com a organização SaferNet. Além disso, a legislação sobre crimes cibernéticos é fraca, configurando somente de três meses a um ano de reclusão, pouco tempo em contraste às leis dos Estados Unidos que estabelecem sentenças de até cinco anos e/ou uma multa para crimes semelhantes.

Portanto, o Ministério da Educação deve adicionar na grade curricular, um horário para que os alunos participem de debates e diálogos saudáveis sobre assuntos importantes de forma aprofundada e respeitando opiniões individuais, para que possam compreender os problemas da atualidade e soluções eficientes que não envolvam o cancelamento. Além disso, o Ministério da Justiça e Segurança Pública  em parceria com as Polícias Civis deve, por meio da realocação de investimentos para a área dos crimes digitais, aumentar a fiscalização e monitoração dos casos de ofensas, ameaças e exposição de dados privados na internet, de modo a evitar ocorrência de tais crimes consequentes da cultura do cancelamento.