Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/11/2020
O cancelamento surgiu alguns anos atrás na rede social, “Twitter”, quando pessoas, na sua maioria mulheres, postavam “cancelem R.Kelly” - cantor acusado de crime sexual contra menores. Dessa forma, o cancelamento começou como uma forma de dar voz e poder à pessoas que não o tinham e buscar a justiça para indivíduos influentes antes inatingíveis pelas consequências de suas atitudes. Todavia, isso possibilitou uma onda de linchamentos virtuais e acusações com provas rasas, mas que podem potencialmente destruir a vida de alguém. Esse cenário tem origem na presunção da culpa, em que pessoas são condenadas sem ao menos terem a chances de se justificarem e no essencialíssimo, em que deixam de criticar os atos do individuo para criticar ele como um todo.
A priori, é válido ressaltar a impossibilidade de defesa como um dos principais fatores da cultura do cancelamento. De acordo com o Art.5 da Constituição Federal de 1988, o acusado tem o direito da defesa, podendo contradizer com as incriminações, para enfim um julgamento ser realizado. Contudo, na cultura do cancelamento, só o fato do indivíduo ter sido acusado já é motivo suficiente para uma cadeia de comentários odiosos, perda de seguidores e, em casos mais graves, perda de contratos. É o caso da cantora Manu Gavassi, cancelada no início de 2020, após comentário racista durante o reality show “Big Brother Brasil” BBB, em que não teve a chance de reconhecer o seu erro, muito menos de se defender, já que estava confinada, sem acesso aos meios virtuais, sendo vítima de ódio por semanas.
Ademais, é oportuno destacar o fato das pessoas deixarem de criticar as ações tomadas por alguém e passarem a criticar a pessoa em si. É o exemplo da influenciadora digital, Bianca Andrade, também cancelada no período do BBB 2020 ao não acreditar nas mulheres que faziam parte do programa e ser acusada de machismo, os internautas acusaram-na de ser uma pessoa ruim e machista e, mesmo depois de Bianca ter se desculpado, os comentários de ódio não pararam. Isso evidencia um ataque ao tipo de pessoa que o acusado é e não às suas ações, além dos canceladores, geralmente, rejeitarem pedidos de desculpas por considera-los falsos, sem se importar com o quão convincente seja.
Destarte, é necessário buscar medidas que diminuam o impacto da cultura do cancelamento. Cabe ao Ministério da Educação junto de especialistas nas áreas sociais desenvolverem programas de conscientização e o desenvolvimento de vídeos e posts em todos os meios de comunicação, a fim de alertar sobre o cancelamento tóxico e suas consequências. Outrossim, é necessário que haja debates com a finalidade de dividir o que deve ser de fato cancelado e o que deve ser dialogado, sempre ressaltando a liberdade de expressão e a argumentação saudável. Por conseguinte, a agressividade da cultura do cancelamento será minimizada no Brasil hodierno.