Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/11/2020
Analisando a Bíblia como documento histórico, pode-se perceber alguns costumes dos povos antigos nela retratados, dentre eles, fica evidente o linchamento verbal e físico pela realização de atitudes condenáveis, como a traição conjugal. Lamentavelmente, esse hábito não foi extinto na contemporaneidade, apenas mudou de forma para o meio virtual, consolidando a cultura de cancelamento. Dessa forma, é necessário perceber que a intolerância e a irresponsabilidade universal da sociedade são fatores a serem debatidos para a erradicação dessa cultura de cancelamento.
No que concerne ao primeiro ponto, cabe salientar que a intolerância ao posicionamento de indivíduos, evidenciada na cultura de cancelamento, é prejudicial, já que retira a pluralidade das ideias, acabando com o diálogo e o debate. Compreender a dimensão disso requer diálogo com a teoria de René Descartes. Consoante o pensador, " é fundamental a discussão popular em âmbitos democráticos que visem atenuar os problemas que englobam tal comunidade". Traçando um paralelo, a realidade comprova que a intolerância humana é tanto causa, como efeito do “cancelamento” e fere o direito de liberdade de expressão, haja vista que, segundo o artigo 5º da CF 88: “é livre a expressão (…), independentemente de censura ou licença”. Portanto, cultura de cancelamento deve ser combatida, a fim de garantir não só o que foi idealizado por Descartes, como também um direito básico.
Quanto ao segundo ponto, é importante perceber que há uma certa irresponsabilidade social quanto às consequências que o ato de “cancelamento” pode trazer para outra pessoa. A fim de entender essa ideia, vale recorrer ao que diz o filósofo brasileiro Leonardo Boff, que atesta a presença de princípios capazes de garantir uma existência boa na Terra, sendo um deles a responsabilidade universal, por meio da qual o ser humano dá-se conta das consequências benéficas ou funestas de suas ações. Seguindo essa linha de pensamento, os indivíduos que realizam o cancelamento não exercem a responsabilidade universal e não dão-se conta de que suas ações prejudicam ao próximo, não dando a possibilidade de redenção dos erros e podendo ser motivo de uma possível depressão.
Destarte, levando em conta a importância da discussão, é pertinente apontar uma maneira de enfrentar a problemática. Nesse contexto, o ministério da Educação, órgão responsável por formular e normatizar políticas na área, deve lançar um Plano Nacional pela a erradicação de “tribunais virtuais”, instituindo ações importantes como a inclusão deste tópico na BNCC, incentivando o debate, bem como a realização de palestras sobre as consequências funestas do “cancelamento”. Isso pode ser feito por meio dos governos estaduais e municipais, os quais devem se engajar, já que a promoção disso é de interesse comum entre esses setores administrativos. Com isso, a internet será um ambiente melhor.