Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/11/2020

O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman caracterizou o mundo globalizado como “modernidade líquida”, na qual o indivíduo, apesar de usufruir da liberdade, é totalmente responsável por seus atos. Evidenciando seu pensamento está a problemática da cultura do cancelamento, que de forma errônea e inapropriada, crítica uma personalidade ou instituição, frequentemente nem mesmo permitindo que o acusado se defenda, devido a alguma atitude que desagradou os princípios de um grupo de internautas. Esse costume, cada vez mais comum, promove a ignorância acima do diálogo e da empatia, colaborando ainda mais para a disseminação da intolerância na sociedade.

A princípio, a cultura do cancelamento é uma expressão tóxica da repudiação à opiniões divergentes, problema persistente e cada vez mais preocupante nas mídias. Segundo dados da iniciativa Comunica Que Muda (CQM), em média, 84% dos comentários sobre um determinado tópico nas redes são negativos, encobrindo comentários positivos ou neutros sobre o mesmo assunto. Tamanha negatividade afasta usuários do esclarecimento, promovendo o ódio e a ignorância acima da compreensão.

Outro fator que contribui para que a cultura do cancelamento seja uma grande problemática é a questão da falta de empatia e o descaso com a saúde mental dos alvos. Um estudo publicado na Revista de Psiquiatria da UNIFESP concluiu que o percentual de suicídio entre adolescentes aumentou 24% em 2016, dado que estaria diretamente relacionado com o uso de tecnologia. Dessa forma, ao acusar alguém, o indivíduo pensa somente em desmerecer a opinião alheia, sem abrir espaço para o diálogo ou refletir sobre o impacto em que suas ações resultarão no psicólogo do outro.

Diante do exposto, medidas devem ser tomadas para que essa situação seja controlada. Dessa forma, especialistas em cultura digital, em parceria com organizações também conhecedoras desse problema, devem desenvolver iniciativas que combatam a cultura do cancelamento. As mesmas devem ocorrer nas próprias redes sociais, por meio da produção de conteúdo que apresente a real face dessa problemática, criticando e conscientizando os usuários. É possível, também, criar uma “hashtag” para identificar a iniciativa e ganhar mais visibilidade, a fim de conscientizar a população, enfim colaborando para uma sociedade mais justa e tolerante.