Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/11/2020
Em “1984”, George Orwell descreve um mundo totalitário, em que todos os aspectos da vida são controlados por um governo despótico. Nessa realidade, há os “dois minutos de ódio”, evento público no qual a multidão é incitada a condenar qualquer indivíduo que fuja da conduta hegemônica. Paralelamente, na contemporaneidade, o ambiente virtual permite o linchamento ou cancelamento de personalidades pelos usuários, em virtude de discordâncias quanto a atitudes e ideias. Destarte, é profícuo analisar tal problemática.
Primeiramente, cabe ressaltar que, consoante ao sociólogo Manuel Castells, a insegurança da sociedade globalizada favorece a formação de comunidades fechadas, definidas por crenças únicas. Nesse contexto, a facilidade de comunicação através das redes sociais acarreta na mobilização desses grupos para criticar, muitas vezes de forma violenta, pessoas que diferem de sua forma de pensar. Consequentemente, a convivência no meio digital torna-se tóxica e permeada pela fragmentação entre diferentes nichos. Em decorrência disso, a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição de 1988, é danificada, uma vez que se fundamenta na contraposição respeitosa de discursos.
Por conseguinte, conforme o estudioso Émile Durkheim, o desenvolvimento da sociedade capitalista leva à solidariedade mecânica, isto é, ao enfraquecimento dos vínculos emocionais entre sujeitos com características distintas. Nesse sentido, a atmosfera tecnológica, marcada pelo distanciamento físico e psíquico entre seus membros, limita a capacidade de tolerância dos participantes no tocante à contradição. Assim, facilita-se a deterioração das relações sociais de modo geral, haja vista a importância do lócus eletrônico para a cultura comunitária e afetiva na pós-modernidade.
Logo, medidas se fazem necessárias para alterar esta situação. Visando a esse objetivo, é mister que o Ministério da Justiça, em parceria com o MEC e empresas de redes interativas, desenvolva uma campanha de redução da toxicidade no meio virtual. Nessa perspectiva, urge que sejam realizadas palestras e oficinas informativas sobre as penalizações de crimes online e maneiras de amenizar a propagação da odiosidade nessa conjuntura, com a finalidade de conscientizar os presentes acerca dos riscos do comportamento antiético na internet. A partir dessas ações, poder-se-á criar uma sociedade mais dialógica, acolhedora e na qual nenhum ser humano será vítima do ódio coletivo por proferir opiniões próprias, ao contrário do que ocorre no livro de Orwell.