Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/11/2020
Consoante a reflexão do físico Albert Einstein, tornou-se aterradoramente nítido que a tecnologia ul-trapassou a humanidade. Tal concepção é notória na contemporaneidade, na qual a internet promoveu abertura a uma nova forma de justiça social: a cultura do cancelamento. As plataformas digitais propor-cionam liberdade aos usuários, o que facilita a manifestação de diversos ideais sujeitos a uma série de discussões, logo, se alguém fez ou disse algo que não é tolerado na modernidade, esse indivíduo pode estar submetido ao “cancelamento”. Todavia, há uma injustiça por trás desse movimento, que pode ser considerado autocrático por produzir uma sensação de moralismo. Entre os fatores que geram esse óbice, destacam-se a intolerância com as ideias contrárias às que são comumente propagadas na inter-net, bem como o comportamento de manada que influencia a formação de opiniões individuais.
Em primeiro plano, a reclusão gerada pela atual pandemia fez com que a intolerância ganhasse ma-is espaço no cotidiano dos usuários e, por conseguinte, a cultura do cancelamento fortaleceu-se. Muitos internautas, ao se depararem com opiniões divergentes das que são ambientalizadas, ao invés de pro-moverem um diálogo saudável, optam por “cancelar” o outro indivíduo. Análogo ao pensamento do filó-sofo Edmond Goblot, a tolerância consiste em proibir-se de todos os meios violentos ou injuriosos, por outras palavras, em propor suas opiniões sem procurar impô-las. Desse modo, a cultura do cance-lamento torna-se autoritária na medida em que os usuários reprimem a circulação de opiniões distintas.
Soma-se a isso, a influência do comportamento de manada na formação de reflexões individuais. Sobretudo, esse conceito faz referência à atitude dos animais que se juntam para proteger-se de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem a ideia de um grande influenciador ou grupo, sem que a decisão passe, prioritariamente, por uma reflexão individual. Na sociedade contemporânea, poucos indivíduos preferem ouvir, entender e formar uma opinião antes de criticar e “cancelar”. Em consonância com a expressão popular “Maria vai-com-as-outras”, na internet, por exemplo, se muitas pessoas compartilham uma ideia, outras tendem a segui-la sem ter o menor conhecimento sobre o assunto, o que faz com que a cultura do cancelamento ganhe mais força.
Dessarte, é evidente que o feito de criticar e “cancelar” produtos ou serviços foi transferida para as relações interpessoais. Portanto, cabe às plataformas digitais e aos veículos midiáticos criar campa-nhas que abordem as perspectivas negativas da cultura do cancelamento, de modo que os usuários “canceladores” entendam a importância de tolerar as opiniões divergentes e de fazer críticas embasadas em suas próprias reflexões. Por meio disso, seria possível, conforme os preceitos definidos por Edmond Goblot, tornar a sociedade gradativamente mais tolerante e dialógica.