Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 23/04/2021

A cultura do cancelamento é uma forma moderna de ostracismo em que um indivíduo ou grupo é expulso de uma posição de influência ou fama devido a atitudes consideradas questionáveis. Na esteira desse processo, esse movimento social pode ser considerado como uma forma de romper com uma estrutura de poder para fazer justiça social. Entretanto, as consequências geradas por esse fenômeno afetam negativamente a saúde mental do cancelado, tornando-se um problema a ser combatido.

Em primeiro lugar, é imperioso salientar que a cultura do cancelamento não é um movimento recente no cerne brasileiro e mundial. De acordo com a pesquisadora Anna Vitória Rocha, o cancelamento surgiu através da #MeToo com o intuito de fazer justiça e denunciar crimes como abuso sexual, racismo e homofobia, transformando-se em amplificador de vozes das minorias. Nesse sentido, diversas figuras públicas, entre eles o escritor Woody Allen, foram cancelados após terem sido acusado de diversos crimes como abusos sexuais, transfobia, racismo e xenofobia, perdendo visibilidade no meio virtual. Logo, é cristalino que o cancelamento converteu-se como propulsor no combate as injustiças sociais.

Em contrapartida, a aldeia global carrega o estima associado a cultura do cancelamento, entre eles os diversos comprometimentos a saúde mental do indivíduo cancelado. Nessa perspectiva, a série ‘’Black Mirror’’, no episódio intitulado ‘’Odiados Pela Nação’’, conta a história de uma detetive que investiga a morte misteriosa de pessoas aleatórias e a ligação desses crimes com uma corrente de rede social destinada a linchar virtualmente todo aquele que a internet julga merecedor. Para além da ficção, a história pode se relacionar com as sequelas que o cancelamento pode causar tanto ao cancelado, quanto ao cancelador. Nesse viés, a psicóloga Beatriz Vianna afirma que o cancelamento, além da perda patrimonial, provoca diversos danos psicológicos como ansiedade, síndrome do pânico e depressão. Sendo assim, a sociedade tem um longo caminho a percorrer rumo a solução dessa problemática.

Portanto, medidas compartilhadas entre Poder Público e Sociedade Civil são necessárias para combater esse hematoma social e sua mitigação. Nessa égide, o Estado, em parceria com a mídia, deve incentivar o diálogo entre as diferenças e ponderar as atitudes do cancelamento, por meio de propagandas televisivas e, principalmente, nas redes sociais, a fim de que essa cultura não seja mais intensificada e objetivo inicial desse movimento seja retomado. Ademais, a escola, através de aulas interdisciplinares, deve discutir as causas e consequências da cultura do cancelamento na sociedade, fazendo com que os indivíduos saibam, assim, as sequelas geradas por esse movimento. Feito isso, a aldeia global poderá, de fato, construir caminhos para uma nova realidade.