Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 09/11/2020

Durante a década de 1960, a sociedade americana foi marcada por movimentos identitários, os quais buscavam a ampliação de direitos de grupos minoritários e o combate ao preconceito. Entretanto, o fenômeno responsável pela denúncia e discussão de temas relevantes ocasionou, na contemporaneidade, o cerceamento de discursos de figuras públicas, reduzindo a possibilidade de debate e a reformulação de opiniões na parcela da população afetada. Outrossim, a cultura do cancelamento, impulsionada pela impulsividade de internautas, gera uma ameaça à imagem e aos meios de subsistência dos cidadãos atingidos.

Segundo Herbert Marcuse, importante filósofo alemão, a tolerância e o respeito devem ser totais durante debates intelectuais e o desenvolvimento de argumentações, sendo essencial para a fomentação de ideias. Seguindo a linha do autor, na atualidade, a problematização de figuras públicas no meio digital, com a utilização de uma postura agressiva, sem o estabelecimento de um diálogo eficiente, contribui para a redução da possibilidade de mudança de opiniões e o desenvolvimento crítico. Sob essa ótica, há a perseguição institucional de políticos e artistas, impulsionada pela imposição de determinado comportamento, causando a ocorrência de linchamentos virtuais.

A obra Ensaio sobre a Cegueira, retrata a alienação moral na sociedade, mostrando um país marcado pela aceitação de um governo autoritário e comportamentos violentos pela parcela da população que não é prejudicada. De modo análogo, no Brasil contemporâneo, a normalização de compartilhamentos sem fundamentação teórica e a impulsividade dos internautas, geram ataques em mídias sociais que alcançam dimensões desproporcionais ou ocorrem sem base em fatos. Desse modo, há um prejuízo na imagem dos cidadãos atingidos, afetando seus meios de subsistência atuais e futuros. A título de exemplo, o americano Emmanuel Cafferty foi desligado de seu emprego após sofrer difamações virtuais ao ser acusado equivocadamente de ter realizado um gesto de conotação racista.

Fica evidente, portanto, a necessidade de medidas para solucionar esse impasse. Dessa forma, o MEC deve inserir na grade curricular de escolas e universidades, públicas e privadas, palestras que visem a conscientização sobre a importância da tolerância, além da seriedade das consequências geradas por compartilhamentos sem base teórica, com o intuito de causar uma diminuição em casos de ataques virtuais e proporcionar um meio para discussões adequadas nas redes. Ademais, o Ministério do Trabalho deve estabelecer multas para empresas que ocasionem desligamentos ou impedimentos na contratação de funcionários devido a ocorrência falsas denúncias, a fim de impedir a formação de prejuízos na carreira de cidadãos, originados pela cultura do cancelamento.