Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/11/2020
O termo “cancelamento” surgiu em meados de 2017, utilizado para nomear a prática virtual de punir ou envergonhar alguém que cometeu alguma atitude inadequada, sendo elas famosas ou não. A ideia do cancelamento passou a ser popularizada e difundida a partir do movimento #MeToo, que foi uma série de denúncias de assédio sexual contra homens poderosos que se espalhou pelo mundo inteiro. É importante ressaltar que ao decorrer do tempo o movimento começou a mudar de rumo, fazendo com que não seja mais necessário ter cometido um crime para que possa ser cancelado. O uso de um termo de maneira equivocada, uma expressão que reproduz preconceitos ou até mesmo o silêncio em um caso de injustiça, já virou suficiente para que uma pessoa seja cancelada. A cultura do cancelamento foi perdendo o senso de proporção, fazendo com que as pessoas sejam altamente atacadas, transformando o cancelamento no objetivo final e desviando a atenção naquilo que realmente importa, a educação e conscientização das pessoas que agiram equivocadamente.
Na parábola de Friedrich Nietzche, professor alemão de Filosofia e Poesia, um cordeiro diz a seguinte frase, “Essas aves de rapina são más; e quem for a menos possível ave de rapina, ou antes, o seu oposto, cordeiro— este não deveria ser bom?” Ou seja, para que possa se intitular como bom, o cordeiro sente a necessidade de apontar o mau naqueles que sejam diferentes dele, prática que tem semelhança a cultura do cancelamento. Em que os indivíduos são julgados pelos seus erros tidos como irreparáveis. Além disso é importante frisar que manter-se neutro não é uma boa opção nesse universo de cancelamento, já que quem não cancela também corre o risco de ser cancelado.
Para o Filósofo francês Michael Focalt, o poder e o controle exercido estão na rede de interações entre as pessoas a qual é legitimada por meio de seu discurso. É notório que a abrangência oferecida pelos meios digitais é utilizada para fortalecer diversas ideologias de grupos que se veem no direito de ditar regras e comportamentos vistos como “desconstrução social”. Mas, na verdade, colaboram com uma conduta de banimento social e contribuem na construção de um “Tribunal da Internet”.
Sendo assim, procurando amenizar essa problemática, a mídia deve tornar-se ativa no processo de mudança através de campanhas que tragam informações sobre as consequências do cancelamento, conscientizando as pessoas a não praticarem tal ato, a fim de inibir esse linchamento virtual. Assim, o meio virtual poderá ser um ambiente mais tolerante, onde as pessoas procurem reeducar aqueles que agiram de maneira inadequada para que possam repensar em suas atitudes e procurarem mudança.