Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/11/2020

Na série mexicana “Control Z”, muitos foram os alunos que tiveram seus dados pessoais vazados, gerando uma onda de “cancelamento” com os envolvidos, como foi o caso de Isabela, que teve sua identidade transexual revelada e foi excluída do meio social e virtual. Não obstante, a “cultura do cancelamento” na sociedade contemporânea é cada vez mais notória e, embora funcione como uma ferramenta para denúncias de discursos que ferem a sociedade, também dificulta a liberdade de expressão, uma vez que muitas foram as pessoas alvos apenas por não gostar de determinada  marca ou série. Indubitavelmente, esse panorama se deve a dois principais alicerces: o desrespeito a opiniões diferentes e a inclinação a violência por parte dos ditos “juízes da internet”.

A priori, de acordo com Descartes: “é fundamental a discussão popular em âmbitos democráticos que visem atenuar os problemas que envolvem tal comunidade”.  No entanto, isso não ocorre na “cultura do cancelamento”, uma vez que há a exclusão da possibilidade de aprendizagem e de conciliação, havendo assim uma objetificação das pessoas, já que as mesmas não possuem a oportunidade de se defenderem antes de serem descartadas, como afirma a dramaturga e jornalista Mônica Santana. Dessa forma, observa-se que é necessário uma maior conscientização sobre os impactos dessa nova modalidade no meio digital e que o respeito ao próximo é primordial nesse cenário.

Ademais, segundo o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, o ser humano culturalmente tem a tendência de desejar se sentir superior ao outro, realizando atos que possam denegrir a imagem  ou até mesmo ferir a pessoa e “justificar” tais ações como condutas moralistas. Esse fato observa-se em uma narração bíblica, onde uma mulher adúltera quase é apredrejada, tendo esse evento evitado a partir da seguinte afirmação de Jesus: “Quem dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a atirar uma pedra nela.” Desse modo, observa-se que essa cultura pode se apresentar como uma transposição do linchamento para o âmbito das redes sociais, com o objetivo de “purificar” aqueles que julgam.

Infere-se, portanto, que a “cultura do cancelamento” é uma ferramenta nova no meio digital, que deve ser usada com sabedoria e consciência. Para isso, urge que o Ministério da Educação, por meio das instituições educacionais, auxiliem e alertem sobre a utilização e as consequências dessa cultura, através de debates com alunos e profissionais da área de direito e sociologia, de modo virtual com o intuito de alcançar maior número de pessoas. Fazendo assim, as ocorrências de efeitos negativos da cultura serão minimizadas, uma vez que os os cidadãos obterão mais consciência sobre o respeito às  diferentes opiniões e uma minimização sobre a violência enraizada culturalmente será realizada. Evitando, dessa maneira, atitudes como as retratadas na série “Control Z”.