Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 10/11/2020

O filme “Nerve: Um Jogo Sem Regras” retrata a trajetória da jovem Vee, que conquista milhares de espectadores devido ao seu sucesso em um jogo online. No entanto, após o descumprimento de regras e fracasso no jogo, Vee passa a ser perseguida e ameaçada pelo público, inclusive em sua vida privada. Similarmente, a falta de empatia e a ausência de limites do meio digital no Brasil hodierno, permitem a concretização da cultura do cancelamento, na qual usuários se sintem livres para julgar e condenar ações sem medir as consequências.

Em primeiro plano, o Marco Civil da Internet, sancionado no Brasil em 2014, assegura a todos os usuários da rede privacidade e liberdade, assim como a punição dos que violarem tais direitos. Contudo, a inaplicabilidade da legislação, assim como a impunidade dos infratores, incitam a busca de justiça com as próprias mãos por parte da comunidade virtual, que institui a cultura do cancelamento. Assim, o universo digital se transforma em um tribunal para julgamento de atitudes tomadas tanto no mundo físico quanto no digital.

Além disso, para o filósofo Jean-Paul Sartre, a violência representa o fracasso da sociedade. Nesse sentido, é visível que a violência presente da cultura do cancelamento - seja por parte da personalidade “cancelada” ou dos usuários que a praticam - representa o fracasso do sistema educacional brasileiro, que negligencia a construção de ideais de éticos e sociais na formação acadêmica dos indivíduos, fator que corrobora com o fortalecimento de ações egoístas generalizadas, como perseguições e ataques realizados sem oportunidade de remissão.

Dado o exposto, torna-se urgente a realização de uma parceria entre Ministério da Educação e Ministério da Ciência e Tecnologia, com o objetivo de desconstruir a justiça com as próprias mãos presente na cultura do cancelamento e informar sobre os meios de ação adequados à situação. Tal finalidade seria alcançada através da elaboração de uma cartilha de ética, com ênfase no meio digital, que seria trabalhada em sala de aula por professores qualificados e incentivariam a empatia na internet, bem como apontariam canais de reclamações e denúncia acerca do comportamento de outros usuários. Assim, violência e cancelamento seriam substituídos por ética e discernimento, de modo a livrar o país da sucessiva repetição do cenário retratado em “Nerve”.