Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 12/11/2020
Anos atrás, a fotografia de um urubu ao lado de uma criança magrinha sentada no chão ganhou grande repercussão mundial. Após o sucesso da obra, o fotógrafo recebeu diversas cartas que o criticavam duramente por não ter ajudado a criança no momento, o que, suspeitam, foi o motivo do seu suicídio. Na contemporaneidade, essas críticas contra uma conduta considerada errada ganharam a internet, e muitos brasileiros sofrem com esse tipo de ataque que, além de injusto, pode gerar graves consequências psicológicas na vítima. Diante disso, é flagrante o desafio para combater esse comportamento, que é prejudicado tanto pela ineficácia de ações políticas quanto pela negligência de instituições sociais.
Em princípio, muitas pessoas, por não conhecerem os malefícios dos ataques virtuais e guiadas pelo sentimento de revolta gerado pela discordância com a conduta de um certo indivíduo, se organizam para gerar o chamado “cancelamento”, ou seja, ataques e punições ao mesmo. Esse cancelamento, porém, é injusto, visto que, caso a conduta configure crime, deve ser tratado pelo Estado sob a máxima “ninguém é culpado até que se prove o contrário”, e caso não configure, não cabe ao julgamento de ninguém, já que é natural que pessoas errem e, muitas vezes, os internautas não têm total conhecimento do acontecido. Nesse sentido, verifica-se que, mesmo após avanços na área do direito, ainda há muita negligência acerca da justiça em meios digitais por parte dos brasileiros.
Ademais, no contexto relativo à questão pública, é flagrante a ausência de políticas públicas suficientemente efetivas para combater essa prática. Prova dessa debilidade pode ser verificada com frequência na plataforma digital Twitter, onde diariamente internautas sofrem cancelamento, como foi o caso da estudante que, em 2020, tatuou o contorno da África em sua costela e recebeu diversos ataques gratuitos que podem causar graves consequências psicológicas, o que exibe a atual gravidade do problema. Logo, indubitavelmente, é necessário maior engajamento por parte das autoridades competentes para resolver a questão do cancelamento virtual no Brasil.
Portanto, com o objetivo de acabar com cultura de cancelamento e, assim, tornar a internet um lugar seguro, compete a mais famílias e setores da imprensa ampliar, por meio, respectivamente, de mais diálogos domésticos e documentários em horário nobre sobre o tema, a necessária preocupação com os perigos da cultura de cancelamento. Além disso, cabe ao Governo Federal intensificar investimentos em políticas públicas para garantir que os internautas brasileiros não sofram com ataques virtuais, por meio de uma reestruturação orçamentária capaz de destinar mais recursos específicos para contemplar essa pauta.