Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 13/11/2020

A participante do reality show Big Brother Brasil 2020, Rafa Kalimann, foi altamente criticada durante a sua estadia no programa, devido as suas ações como missionária em algumas regiões do continente africano. Tida como “white savior”, um termo que, basicamente, refere-se a brancos que utilizam da imagem de vulneráveis não-brancos para promover um status de salvador, a influencer digital foi cancelada. Essa prática, agora mostrada como um traço, uma cultura dos usuários da Internet, vêm se tornando cada vez mais frequente entre as diversas plataformas da atualidade. Nesse sentido, no que tange à questão da cultura do cancelamento, nota-se a configuração de um grave problema,  em virtude de seus efeitos sobre a saúde mental e da ineficiência deste método.

Quando algum internauta, sobretudo personalidades mais influentes, faz alguma postagem infeliz e ofensiva nas redes, os demais usuários, na tentativa de fazer a justiça, recheiam a publicação com comentários ridicularizando e atacando o autor desta. Então, comumente deixam de consumir o conteúdo produzido pelo tal, buscando excluí-lo da sociedade ou, ao menos, torná-lo inexistente a uma pessoa ou grupo. Essa abordagem agressiva àqueles que erram no meio virtual acarreta problemas à saúde mental não só deles, como dos demais indivíduos, que temem em publicar livremente em suas páginas e receberem o mesmo tratamento severo de exclusão.

Em segundo lugar, cabe pontuar que o cancelamento é um mecanismo ineficiente contra as injúrias e inadequações no ambiente cibernético. Sendo um recurso que busca não deixar  os responsáveis por atitudes preconceituosas sem determinada punição, se baseia no linchamento desses, o que não é tão eficaz quanto um diálogo, por exemplo. Dessa forma, a web, que têm potencial para abarcar discussões políticas e civilizadas, passa a ser um ambiente em que, segundo o cientista social Diogo Soares, bacharel pela USP (Universidade de São Paulo), internautas ultrapassam a defesa de seus valores e passam a perseguir e provocar pautados no individualismo. Como reflexo da agressividade e egoísmo, os supostos culpados nada aprendem e seguem cometendo os mesmos deslizes.

Em suma, é necessário que o Poder Público, na condição de garantidor do bem-estar e dos direitos à população, em conjunto com as grandes empresas representantes das redes sociais, atue na conscientização dos internautas, por meio de campanhas e postagens quanto ao uso consciencioso e respeitoso das plataformas, deixando claras as medidas àqueles que não o fizerem, isso a fim de promover um ambiente de discussão e diálogo saudáveis. Ademais, é imprescindível o oferecimento de apoio aos usuários mentalmente debilitados devido espaço virtual. Assim, será possível aprender com erros passados, ao contrário do ocorrido com Rafa Kalimann após seu cancelamento.