Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 14/11/2020

O termo cancelamento surgiu por volta de 2017 para denominar uma forma de linchamento e boicote virtual. Foi popularizado a partir de um movimento promovido por celebridades, conhecido como #MeToo que denunciava casos e nomes de agressores sexuais. Mas com o tempo qualquer demonstração ou uso de qualquer expressão equivocada, que reproduz preconceito ou questão de valor discutível, virou motivo para cancelamento. Assustadoramente,  essa cultura adquiriu uma dimensão que foge a qualquer forma de controle, podendo levar a consequências graves na vida de pessoas, nem sempre mal intencionadas. Torna-se, portanto, necessário criar uma cultura de combate às “fake news” e melhor critério na avaliação das notícias, antes de se sair julgando e condenando pessoas sem dar tempo a elas de se explicarem ou se retratarem pelo ocorrido.

Os motivos para ser cancelado são amplos: desde publicações e comportamentos racistas, homofóbicos ou machistas até a concordância com governos extremistas e radicais. Não é necessário ser uma celebridade para ser cancelado. As consequências variam desde o boicote virtual,  ao não consumo de produtos e marcas associados ao cancelado,  ao rompimento de contratos, a demissões, podendo chegar inclusive ao linchamento psicológico e físico real das vítimas do cancelamento.

Como  o processo ocorre sempre de forma instantânea e explosiva nas redes sociais, não é possível  controlar suas consequências. A opinião pública é facilmente manipulada pelos “haters”. Se o cancelado não agir rapidamente expondo sua versão dos fatos de forma efetiva, mesmo não mal-intencionado terá que sofrer as consequências da sua fala ou comportamento, muitas vezes mal interpretados.

A cultura do cancelamento foi discutida por Jia Tolentino em seu livro “Falso Espelho” em que explora as relações que estabelecemos com nós mesmos na era da internet. Ela afirma que os mecanismos de recompensa online estão substituindo a busca por aprovação na vida real, de forma que, fazer uma declaração política justa no Twitter para muitas pessoas tornou-se “um bem político em si mesmo”. Ela usa o termo “sinalização de virtude” para descrever essa necessidade dos usuários das redes sociais de se manifestarem contra postagens que acham incorretas, sendo a web aberta a quem quiser se manifestar.

Para se ter algum controle sobre esse processo de cancelamento, às vezes injusto, os provedores das redes sociais devem estabelecer critérios mais cuidadosos para as postagens. Algoritmos capazes de  filtrar assuntos muito polêmicos, violentos, extremistas ou de cunho racista, com desrespeito aos direitos humanos, devem ser desenvolvidos para evitar tais postagens antes que essas viralizem.