Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 14/11/2020
Na série mexicana “Control Z”, um hacker consegue acessar os celulares dos alunos do Colégio Nacional e inicia uma série de vazamentos constrangedores. Como consequência, aconteceram diversos conflitos, preconceitos e “cancelamentos” das pessoas envolvidas. Fora da ficção, é perceptível tal movimento hoje conhecido como “cultura do cancelamento” que começou, há alguns anos, como uma forma de amplificar a voz de grupos oprimidos e forçar ações políticas de figuras públicas ou marcas. Entretanto, apesar de ter um primórdio altruísta, não há dúvidas que esta prática se tornou palco para linchamentos virtuais e discursos de ódio.
Em primeiro plano, na Idade Média, a sociedade era teocêntrica, ou seja, a Igreja Católica controlava o pensamento medieval como um todo. Desse modo, aqueles que ousavam discordar de seus valores e crenças eram julgados pelo Tribunal da Santa Inquisição. Paralelamente, percebe-se que, na atual realidade, a cultura do cancelamento reproduz esta lógica punitivista ao linchar quem muitas vezes fez um comentário por ignorância. Dessa forma, muitos internautas sentem-se inseguros em expressar sua opinião por medo de julgamentos alheios. Logo, tal prática provoca a concepção de que erros são inaceitáveis, produzindo, assim, impactos negativos para o corpo social.
Em segundo plano, durante o movimento Vidas Negras Importam, a atriz Skai Jackson foi acusada de ter feito um garoto ser expulso da escola e dos pais dele terem sido demitidos injustamente por causa da exposição de comentários racistas do suposto garotinho no Twitter dela. É importante ressaltar que menino linchado virtualmente não era o autor de tais narrativas racistas. Dessa maneira, é evidente que divulgação antecipada e sem uma ampla análise do caso, pode acarretar em problemas psicológicos, desemprego, isolamento social e fomentar ainda mais o discurso de ódio já existente no espaço virtual.
Por fim, diante dos desafios supracitados, é necessária a ação conjunta do Estado e da sociedade para mitigá-los. Nesse âmbito, cabe ao poder público, na figura do Ministério Público, em parceria com a mídia nacional, desenvolver campanhas de conscientização - por meio de relatos e curta-metragens a serem veiculadas nas mídias sociais - a fim de promover um debate sobre a cultura do cancelamento e seus efeitos negativos. Feito isso, o Brasil poderá garantir que tal movimento volte a ser uma forma de chamar a atenção para causas como justiça social e preservação ambiental.