Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/11/2020

O verbo cancelar, geralmente empregado para inviabilizar serviços e compras desde meados do século XXI, atualmente, tem sido associado à prática de “deletar” pessoas via internet. Apesar do movimento, em sua gênese, demonstrar o caráter ativo de grupos extremistas e preconceituosos, por outro lado, apresenta falhas. Nesse interim, cabe mencionar que, embora o verbo hoje represente novos significados, o ato de se “cancelar” alguém devido á forma de pensar, não é tão recente. Além disso, atitudes baseadas em repressão também impedem a “contra opinião”, fomentando a desumanização, principalmente nas redes sociais.

A princípio, nota-se durante a construção social do indivíduo ao longo de décadas, a intolerância como sendo a principal característica quando a pauta é divergência de ideias. Nesse sentido, cita-se como exemplo, o filósofo ateniense Sócrates, que, embora hoje seja conhecido por ser o pai da filosofia, foi “cancelado” há cerca de 400 a.C. segundo as acusações de não reconhecer os deuses do Estado e corromper a juventude os incentivando a questionar preconceitos e induzi-los ao pensamento crítico. O fato do filósofo ter defendido seus ideais e mantido uma linha de raciocínio diferente dos de mais teve como consequência a sua morte.

Ainda assim, embora hoje a sociedade brasileira conte com o auxilio da Constituição Federal, a qual garante a todo cidadão o direito à liberdade de expressão, a segregação de indivíduos a partir de posicionamentos como ocorreu na Grécia, ainda é uma realidade no Brasil, tendo como principal meio para que isso ocorra, as redes sociais. Sobre essa questão, Umberto Eco, em “Apocalípticos e Integrados”, alertou que o avanço das tecnologias de comunicação poderia gerar um futuro catastrófico para as relações sociais, pautado no fim do debate e na ampliação da intolerância. Esse problema de negação pode ser percebido, ainda, na eliminação de pessoas no “paredão” do Big Brother Brasil, reality show que estimula a cultura do cancelamento, favorecendo a não aceitação das diferenças.

Por fim, tendo em vista a premissa de Immanuel Kant de que “O homem é aquilo que a educação faz dele”, cabe, então, ao Ministério da Educação, investir em palestras educativas desde o Ensino Fundamental I até o Ensino Médio, que tenham como objetivo demonstrar a importância de se respeitar a divergência de ideologias, independente de qual seja, para que em um futuro próximo o ato de se “cancelar” alguém, seja extinto. Além disso, é de suma importância que o Estado enxergue tal atitude como algo ilícito e invista em leis para que isso seja escasso das redes sociais. Essas ações conjugadas garantirão o respeito à liberdade de expressão, princípio fundamental dos Direitos Humanos.