Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 26/12/2020
Em meados do século XX, iniciava-se a Terceira Revolução Industrial. Essa revolução, também conhecida como informacional, foi responsável pela expansão da internet e de diversos meios de comunicação ao redor do mundo, como forma de facilitar o acesso a informações e a aproximação das pessoas. Nesse contexto, surgiu o termo “cultura do cancelamento”, levando em conta que vários usuários, principalmente famosos, têm suas vidas expostas na internet e suas ações, por conseguinte, propensas a julgamentos a todo instante. Porém, o supracitado termo acarreta diversas contrariedades, entre elas, principalmente, o púbico alvo do “cancelamento” e o esvaziamento do significado de cultura.
Em primeiro plano, é evidente a seletividade que existe nos meios virtuais, no qual certo grupo de pessoas é, geralmente, protegido, enquanto outros são alvos das verdadeiras consequências da sobredita cultura. Esse cenário pôde ser observado, por exemplo, durante a exibição do programa “Big Brother Brasil” (BBB20), em que, após falas racistas por parte de alguns participantes brancos, inúmeros espectadores negros que tentaram alertar sobre a situação foram taxados de perseguidores e silenciados, enquanto os que cometeram a discriminção se tornaram vítimas, com a desculpa de que eram ignorantes sobre o assunto. Porém, concomitantemente, o integrante negro, vítima do racismo, foi violentamente criticado e odiado após reproduzir falas machistas, sem perdão dos que trataram com desdém as atitudes racistas. Ou seja, se o corpo é branco deve ser educado, se é preto, ridicularizado.
Além disso, outro fator contribuinte para que esse assunto seja considerado um problema é a banalização e esvaziamento do termo cultura, que é amplamente usado nas redes sociais, atualmente, sem atribuir seu verdadeiro significado, já que algo cultural deve ser baseado em estudos sobre como é manifestado, as crenças e costumes envolvidos, assim como hábitos e outros fatores, o que não ocorre neste caso. Consequentemente, o contínuo uso desta expressão, não só acarreta disseminação de algo superficial e sem valor algum, mas também serve como uma forma de classificar e minimizar cobranças, que no fim, continuam sem ser responsabilizadas.
Portanto, é notável que os impasses anteriormente citados são causados, principalmente, pela adesão e difusão de uma expressão de significado fútil. Logo, para que os impactos sejam minimizados é necessário que usuários influentes nos meios de comunicação se eduquem sobre as implicações da normalização da “cultura do cancelamento” e sobre quem é de fato afetado por isso, e passem adiante para que seus seguidores também compreendam. Ademais, é nessessário que as pessoas ponderem se realmente estão sendo injustiçadas ou apenas cobradas pelos seus próprios erros. Assim, as discussões virtuais se tornarão, gradativamente, mais saudáveis e justas.