Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/11/2020
A Constituição Federal de 1988 garante o direito ao bem-estar coletivo. Entretanto, essa benesse constitucional não é cumprida em sua totalidade, uma vez que a sociedade contemporânea enfrenta um constante medo de expressão no meio virtual, visto que essa ação poderá acarretar, muitas vezes, em um cancelamento digital, provocando danos que vão além da internet. Essa problemática é fruto da inobservância estatal e da falta de consciência coletiva.
A princípio, segundo o filósofo Thomas Hobbes, o Estado é gestor dos interesses coletivos. Indo de encontro a máxima de Hobbes, observa-se, frequentemente, na atualidade, a falta de ações estatais diante da crescente intolerância virtual que gera riscos que sobrepõem a web, visto o cenário de ameaças. É possível confirmar esse fato a partir dos dados do Disque 100 que apontam, em 2019, um aumento de 50% nas denúncias de linchamento virtual advindo do posicionamento de internautas. Consequentemente, o direito de expressão, garantido constitucionalmente, é desacatado, gerando riscos à integridade individual.
Ademais, parafraseando Zygmunt Bauman, a tecnologia serviu para afastar as pessoas. Nesse contexto, na contemporaneidade, analisa-se a construção de um ambiente digital que busca a homogenização de pensamentos, já que todos os indivíduos que não seguem minuciosamente esses ideais são excluídos por meio de boicote. Esse cenário paradoxal é observado com a cantora Anitta, corriqueiramente atacada por manifestar seu ponto de vista, como publicou o Jornal a Folha de São Paulo. Como consequência disso, muitos cidadãos deixam de expor suas opiniões na internet devido ao medo de sofrer repressão semelhante a da artista.
Portanto, a cultura do cancelamento na contemporaneidade é marcada por fragilidades. Dessa maneira, é necessário que o Governo Federal, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos arroje medidas contra o linchamento online, promovendo eventos em escolas e praças públicas sobre a necessidade de tolerância virtual a fim de garantir um ambiente digital mais respeitoso e seguro. Além disso, as redes sociais deem promover o direito a liberdade de opinião, criando mecanismos que bloqueiem comentários de ódio, além de disseminar a importância do direito de expressão por meio de propagandas com a participação de influenciadores digitais. Talvez, dessa forma, seja possível garantir a integridade constitucional e inibir a segregação de Bauman.