Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/11/2020

O ano de 2020 trouxe para debate a “cultura do cancelamento” na internet. Embora o objetivo desse fenômeno tenha sido criar discussões contra falas e comportamentos agressivos, racistas e desumanos não é esse o resultado da sua origem. A ação de “cancelar” outra pessoa se tornou uma forma de linchamento virtual, corroborando para a ampliação dos  discursos de ódio, ao invés de ser uma “chave” para o enfrentamento de problemáticas estruturais e enraizadas historicamente.

Em primeiro plano, é válida a percepção da analogia entre esse movimento e o poder descrito por Michael Foucault - em seu livro “Microfísica do poder” -. Para o filósofo,  o poder não está presente só em instituições, mas, na verdade, é difundido por meio de redes que se propagam em conhecimentos e discursos. Dessa forma, é compreensível que o ato de “cancelar” é uma maneira encontrada pelo ator de mostrar o seu poder àquele que está sendo cancelado e, assim, sentir-se superior. Além disso, é possível, ao fazermos a leitura de “Vigiar e Punir”, encontrar uma semelhança entre a forma que o reis puniam seus opositores com o jeito que as pessoas castigam quem acreditam merecer um “cancelamento”. Ambos transformam a punição em espetáculo exibido para uma plateia, com o intuito de provocar medo em qualquer indivíduo que os confronte.

Em segundo plano, é importante a inclusão da análise de Luiz Felipe Pondé no debate sobre a “cultura do cancelamento” na internet, pois o filósofo traz a reflexão sobre como a vida - no meio virtual - é exibida como um objeto em uma vitrine e, por isso, as pessoas sentem que podem invalidar o acúmulo de vivências de cada indivíduo e o definir como uma “coisa” com defeito de fábrica que deve ser descartada. A partir disso, é perceptível porque “cancelar” alguém é uma ação que não realiza o seu objetivo inicial de questionar e refletir sobre certas condutas, mas que apenas aponta e rejeita a pessoa “coisificada”.

Portanto, a fim de que possa haver uma forma eficiente de questionar comportamentos, de maneira que desperte pensamento e mudança de postura, é necessário que a mídia auxilie na propagação sobre os efeitos negativos que o “cancelamento” pode trazer no convívio social. Isso pode ser feito por meio da apresentação desse tema debatido por psicólogos e filósofos em programas de TV, como - por exemplo - no “Encontro” com Fátima Bernardes. Assim, as críticas serão mais produtivas e não mais punitivas, sem dar qualquer chance de redenção àquele que teve uma atitude extremamente equivocada.