Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 29/11/2020

Promulgada em 1988, a Constituição Federal brasileira prevê a ordem, igualdade de direitos e garantias fundamentais a todos cidadãos. No entanto, a cultura do cancelamento é contraditória em relação às diretrizes da Magna Carta, uma vez que tem sua origem pautada na luta pela igualdade das minorias (artigo 5), mas acaba por ferir a justiça social do “cancelado” (artigo 193). Nesse aspecto, convém analisarmos a principal causa, consequência e possível medida interventiva dessa problemática contemporânea.

Em primeira análise, esse fenômeno é motivado pelo comportamento massivo, instantâneo e superficial das redes sociais. Segundo Zigmunt Bauman, célebre sociólogo e filósofo polonês, a efemeridade das relações sociais dos indivíduos pós-modernos faz com que eles estejam sempre aptos a se conectarem e desconectarem rapidamente. Compreende-se, portanto, que os impactos do cancelamento são alarmantes, pois se propagam em alta velocidade e tem efeitos severos na vida dos afetados.

Além disso, o legado dessa cultura é evidenciado nos prejuízos sofridos pelos “cancelados”, eternizados na internet. Conforme publicado pelo portal de notícias G1, famosas influenciadoras digitais como Gabriela Pugliesi tiveram seus contratos rompidos por conta da prática de cancelamento. Nesse sentido, é inadmissível que seja negado o mínimo direito de resposta aos envolvidos, haja vista que são cidadãos e que o direito de se redimir é previsto na Lei Maior.

Desse modo, é necessário um esforço social afim de que a liquidez  moderna cunhada por Bauman seja minimizada. Assim, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deve, com urgência, desenvolver um projeto de desconstrução do cancelamento, por meio de campanhas veiculadas nas grandes mídias, com esclarecimentos de especialistas sobre uma forma de militância mais efetiva. Espera-se, com isso, que a população tome conhecimento que essa prática danosa necessita ser substituída por uma crítica mais aprofundada e construtiva.