Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 05/12/2020

Durante o século XX, a Revolução Técnico-Científico desenvolveu uma série de projetos e evoluções no campo tecnológico. Nesse contexto, o advento da internet possibilitou uma nova perspectiva sobre as relações sociais e ampliou a conectividade em várias parte do globo. Contudo, o uso dessa inovação também fomentou práticas danosas, a exemplo da cultura do cancelamento na contemporaneidade. Assim, entre os fatores que contribuem para solidificar esse quadro destacam-se a impunidade, bem como os ideais individualistas opressores.

Decerto, a legislação brasileira é, por vezes, inoperante no âmbito virtual, uma vez que a sensação de isenção legal contribui para a práticas de atos violentos dentro da plataforma. De maneira análoga a esse cenário, o filósofo Jean Jacques Rousseau afirma que o Estado responsabiliza-se pelo estabelecimento de condições básicas ao promover o bem-estar do âmbito populacional. Contudo, apesar da Constituição Federal assegurar como os direitos básicos a segurança e o respeito, os inúmeros casos de cancelamento na internet se devem ao fato dos indivíduos a considerarem uma “terra sem lei”. Desse modo, assim como afirmado por Gilberto Dimenstein em seu livro “Cidadãos de Papel”, a parte teórica do pleito não passa de documentos sem aplicabilidade, contribuindo para que a disseminação de banimentos virtuais aumente.

Paralelo a isso, é notável que os valores imorais e individualistas incentivam o problema supracitado. Sob tal ótica, no episódio intitulado “Queda Livre”, da série Black Mirror, é apresentada uma distopia na qual as ações sociais são avaliadas pelos indivíduos num aplicativo. Assim, aqueles que possuem médias altas são respeitados e, em contrapartida, os que estiverem abaixo do esperado são excluídos. Fora do ambiente ficcional, a realidade apresentada na internet é semelhante e atos discriminatórios são realizados por diversos grupos quando alguém apresenta uma conduta, julgada por eles, inadequada. Por conseguinte, o ato de cancelar coletivo evidencia a falta de empatia e sintetiza atitudes machistas e preconceituosas.

Destarte, frente a provectos fatores legais e condutas sociais, a cultura do cancelamento torna-se uma problemática vigente no Brasil. Portanto, o Ministério da Justiça, como instância máxima dos aspectos ligados à jurisdição brasileira, deve adotar estratégias no tocante à sensação de impunidade presente na internet. Essa ação pode ser feita por meio de uma reforma no Código Penal, que torne as penas mais rígidas, e a maior fiscalização das condutas virtuais, a fim de gerar um ambiente seguro no qual os dispositivos legais atuarão com eficiência. Ademais, cabe ao Ministério da Educação desenvolver campanhas de incentivo à empatia e respeito à diversidade, com o fito de diminuir a exclusão na rede.