Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 05/12/2020
De acordo com o escritor jesuíta Baltasar Gracián “Todas as coisas têm o seu tempo, e até os valores estão sujeitos a moda. Mas o sábio tem a vantagem de ser eterno. Se este século não o reconhece, os séculos futuros lhe farão justiça”. Esta citação, quando relaciona a “cultura do cancelamento” na sociedade contemporânea, irrompe um debate essencial a respeito das reais motivações e consequências geradas por este fenômeno recente.
A priori, é importante pontuar que a “cultura do cancelamento " caracteriza-se pela hodierna enxurrada de episódios embasados na sabotagem de indivíduos ou instituições devido a posicionamentos e/ou ações destes consideradas ofensivas, não possuindo qualquer critério para tal se não a opinião dos acusadores. Isto, unido ao potencial atrativo de uma tendência, acarreta ocorridos absurdos- pois intervêm de maneira inapropriada nas escolhas estritamente pessoais do envolvido, pondo em risco sua imagem- tal qual a revolta direcionada a cantora Luíza Sonza, por iniciar um relacionamento pouco tempo após seu divórcio.
A posteriori, o combate a posicionamentos preconceituosos e violentos utilizando este boicote virtual como artifício é consoante ao defendido e detalhado na obra literária da escritora Elsa Darlin “Autodefesa uma filosofia da violência; pois a utilização de algum nível de hostilidade como salvaguarda para preservação da dignidade por parte daqueles que compõem grupos marginalizados não somente pela sociedade como pelo Estado é necessário. O que ocorreu na mobilização contra os pareceres transfóbicos, da escritora inglesa da saga Harry Potter, J.K.Rowling, que apesar de não ser julgada legalmente perdeu contratos, seguidores e associados.
Em suma, tendo como objetivo fomentar a utilização das redes sociais de forma pensada como ferramenta de resistência e aplacar o juízo sem critérios e insensato que pode causar sérios danos é necessário que os usuários reflitam mais antes de agir. Para tal é indispensável que uma política de conscientização seja elaborada pelos grandes sites de interação coletiva, colocando mensagens que motivem a reflexão em caixas de texto e imagens publicitárias que divulguem sua iniciativa e promovam a empatia. Destarte, movimentos como o " me too” que iniciou a “cultura do cancelamento” e foi o responsável pela maior visibilidade da causa contra abuso e assédio sexual serrão otimizados.